Refinamento


Passar muito tempo sem postar algo gera uma tremenda indecisão,pois acreditem amigos,muitas histórias acontecem todos os dias,muitos casos me surpreendem diariamente. E fica,de certa forma,díficil escolher o mais adequado,então utilizo o recurso da total adequação ao meu estado pessoal. Pois é,dependendo do que sinto e que quero expressar escolho a história mais próxima da realidade a ser dividida com todos. E vamos lá!

Numa única manhã, dois pacientes me surpreenderam,o primeiro deles um jovem,devia ter uns 25 anos e chegou ao consultório reclamando que não necessitava de nenhum procedimento,apenas queria que eu fizesse um "refinamento" nos dentes dele. Sinceramente,nunca tinha feito um refinamento em odontologia,até porque não existe esse procedimento. Indaguei o paciente sobre o que ele realmente queria,e foi ai que me surpreendi mais ainda. Ele relatou que necessitava de dentes mais brancos,entao queria que eu fizesse o tal do "refinamento". Na verdade, o que ele precisava era fazer um clareamento dental. Conversei um pouco com ele e tentei explicar sobre o real procedimento e que na verdade,numa verdade crua e excludente, um consultório público não realiza clareamento,e que ele deveria procurar um consultório particular,pois o SUS não cobre esse tipo de procedimento. Foi aí que ele virou-se,olhou com espanto e perguntou: "E entao doutor,aonde eu acho esse tal de Susi?" Gargalhadas a parte,tentei resumir em alguns minutos toda a nossa política pública e que ele poderia até exigir melhor atendimento e cuidado ,pois "esse tal de SUS "deve isso a ele,pois o que parece de graça,na verdade sai muito caro através dos impostos que ele,eu e você pagamos todos os dias. Fiquei mais aliviado,o paciente pareceu entender um pouco e saiu sabendo que pode exigir mais,mesmo não recebendo o que é certo do sistema.

Nessa mesma manhã de atendimento,um outro paciente,dessa vez um senhor de 63 anos insistiu para que eu cerrasse seus dentes! Isso mesmo! Cerrar, aparar! Ele insistia que os dentes teriam que ficar iguais aos da dentadura que ele utilizava. Tive vontade de rir,mas comecei a explicar que quem estava errado era a dentadura,essa sim precisava ser consertada, ou entao, providenciar uma nova prótese. Eu já estava perdendo a paciência porque ele não aceitava a hipótese de trocar a dentadura,e sim ,queria que os dentes fossem cerrados. Depois de muitos minutos de conversa,ele chegou à conclusão que realmente a dentadura estava em péssimo estado,mesmo tendo sido feita recentemente. Foi ai que perguntei como ele tinha conseguido a dentadaura,aonde e qual dentista. Mais surpreendente foi ele afirmar que escolheu a dentadura de dentro de uma caixa com várias outras, e aquela era a que mais parecia com os dentes dele. Triste mais verdade. A marginalização de um sistema excludente,que não prioriza a equidade e muito menos as necessidades individuais dos mais carente somente acabrá resultando em problemas cada vez mais graves. Volto a repeteir a mesma questão: o sistema que extrai de forma cruel os dentes de um cidadão não é ainda capaz de repor ,de forma a garantir sua estética e fisiologia. Ele saiu do consultótio e não pude lhe garantir uma resolução viável para seu problema,a não ser que ele deveria procurar uma solução adequada,e mais cara para ter de volta seus dentes. E talvez ele nem siga essa rota...
2 Responses
  1. Tá muito a sua cara humor inteligente.


  2. Andre Says:

    Amilton. Fiquei imaginando o rapaz do "refinamento" sentado do lado de fora do consultorio, depois de toda a conversa de voces, fumando um cigarro e tomando um cafezinho enquanto pensava o que faria pra ter os dentes mais "refinados" da cidade. Tuas estorias dariam um otimo filme!!!