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A volta de Doug Funny


Tudo parecia tranquilo demais no consultório odontológico, tranquilo até o momento que aquele garotinho da semana passada, que dizia ser o personagem Doug funny, retornou para atendimento. "Olha não vim só não ,viu?", entrou falando alto, e completou: "Trouxe ajuda!". A ajuda que ele se referia , vim a descobrir minutos depois, se tratava do irmãozinho dele de apenas 2 anos, que estava mais para o personagem Dennis- Pimentinha.
O Doug sentou na cadeira odontológica, o pai do lado,e a mãe tentava segurar Dennis,mas foi inevitável. Ele começou a correr dentro do consultório, derrubou cadeiras, puxou bandejas, derrubou fotopolimerizador,e enquanto isso , Doug ria desesperadamente, e olhava pra minha cara com ar de vingança,e eu sem saber o que fazer. A auxiliar largou o sugador e saiu tentando segurar Dennis-o Pimentinha, que convenhamos ,estava mais para formiga atômica de tanto que correu dentro do consultório. Depois de devidamente imobilizado pela mãe, Dennis é retirado aos gritos, e Doug começa a chorar...
Minha sexta tinha que terminar assim?!?
Depois de muito tentar, Doug Funny deixou que realizasse um selante na boca dele,mas isso depois de mil promessas de brinquedos e mais brinquedos por parte do pai.
E a família Funny saiu do consultório...

Já estou pensando quantas conspirações acontecem para que muitas loucuras surjam numa sexta,e tudo que eu queria era ir pra casa...



amilton


Adote um Amigo


Quando aquela paciente de apenas 12 anos de idade entrou no consultório odontológico e começou a falar sobre o amor que ela sente por todos os cães e gatos que ,por iniciativa dela,seus pais adotaram, então passei a me identificar com a sequência de relatos dela. Dos três cães e quatro gatos da casa, todos foram trazidos das ruas e receberam carinho,cuidados e muito amor daquela família. A mãe, toda orgulhosa, falava: " Ela vai ser veterinária doutor, ela cuida de todos com muito amor,e se qualquer animal aparece na nossa porta com fome,doente,lá está ela cuidando deles...". Incentivei aquele ato louvável, e lembrei dos meus cachorros,em especial de um que também levei das ruas a cerca de dois anos. Skiter,como passei a chamá-lo, tinha alguns meses de vida e estava vagando pelas ruas próximas ao consultório que trabalho. Com fome,frio e doente,ele foi levado para casa e recebeu cuidados de um veterinário. Assustado, qualquer intenção de carinho era repudiada,ele encolhia-se todo,com medo,já instintivamente defendendo-se como devia fazer nas ruas. Foi demorado o processo de adaptação do Skiter,e hoje,dois anos depois,ele não lembra em nada aquele viralata puguento,magro e doente. Lembrei também do Leão,um viralata que foi adotado pelos alunos de uma escola carente. Se eu pudesse, como mesmo disse a pequena paciente, "levaria todos os cachorros e gatos que sofrem nas ruas para minha casa". Existem instituições que recolhem esses animais das ruas e colocam para adoção, como a UPAC( União Protetora dos Animais Carentes). Um exemplo de amor e de respeito pela vida repassado por uma criança de 12 anos...

amilton



ADOTE UM AMIGO ( Para Refletir):


Só adote um animal depois de refletir sobre isso e em todas as consequências que a posse responsável de um bicho pode trazer para a sua vida e para a vida das pessoas que moram com você;

Pergunte tudo sobre o estado de saúde e as condições do animal. Verifique também se o animal foi devidamente vermifugado e vacinado;

Após a adoção, é necessário levar seu bicho de estimação ao veterinário para saber quais os cuidados a tomar,como o tipo de ração e vacinas.

"Tenho Câncer na Boca"


Quando aquela senhora de 56 anos chegou ao consultório odontológico procurando, assustada, mostrar,segundo ela,"aquele caroço" na boca, eu não imaginava ouvir uma sequência de relatos de uma vida aparentemente normal.
Ela começou falando que não gostaria de morrer, que estava com muito medo,que a vida dela tinha sido sempre marcada por tragédias pessoais. Não queria partir e deixar sua família,sua casa,enfim,mostrou-se muito apegada à vida material que ela vive. E pior, estava sofrendo por antecipação. Acreditava,segundo ela, que estava com câncer de boca."Tenho câncer na boca,tenho certeza disso doutor",afirmou ela.
Aquela senhora estava a dias vivendo em torno de algo que ainda nem se quer existe concretamente. E tudo na vida dela mudou por causa disso,e mal sabe ela que a força do nosso pensamento é tão grande que podemos tornar realidade tudo aquilo que traçamos dentro de nossas mentes. São sintonias de energias que serão trocadas,tudo guiado por nossa mente que trabalha a cada segundo,sem parar.
Depois de feita a anamnese e passado ao exame clínico da cavidade bucal daquela senhora, foi constatao realmente uma pequena lesão com características hiperplásicas,possivelmente ocasionada por trauma físico devido à uma prótese total mal adaptada usada a mais de 10 anos pela paciente, que foi orientada a não usá-la por uma semana e retornar ao consultório para remoção da lesão.
Aconselhada a mudar seus pensamentos, e esclarecida sobre tudo, a senhora pareceu mais tranquila, acho até que já não se via mais morrendo por causa de tudo aquilo que ela relatou.; E saiu para retornar uma semana depois...
Quantos problemas criamos em nossas mentes e que nunca existirão realmente?
Quantos sofrimentos antecipamos?
E nossa mente trabalha sem parar...

amilton


Tão distante, Tão próximo



Durante todo o mês de Junho, o consultório odontológico público que trabalho na Estratégia de Saúde da Família passou por sérios problemas de manutenção, e foi,então, que aproveitei os dias que fiquei fora do consultório para me dedicar a uma das comunidades mais carentes dentro da minha área de abrangência da Equipe de Saúde Bucal que integro.
Separada por barreiras geográficas, com um acesso difícil e que foi extremamente dificultado pelas chuvas intensas que banharam essa região por longos dias seguidos. A única ponte de acesso à comunidade havia sido destruída, tivemos,então,que seguir por trilhas no meio de uma estrada com buracos e muita,muita lama... A menos de um ano atrás essa comunidade não sabia o que era ter luz elétrica, essa invenção secular ainda não havia chegado por lá.
A única escola da comunidade, com 78 alunos sempre nos recebeu com muita alegria, e durante cerca de 20 dias pude realizar junto à comunidade a concretização de um trabalho que começou com a realização de oficinas para capacitar os professores da escola para atuarem como multiplicadores do nosso programa de Saúde Bucal na escola; alunos e pais também foram engajados e capacitados. Por fim,relizamos a técnica de Tratamento Restaurador Atraumático (ART) na própria escola,utilizando o Ionômero de Vidro com sua comprovada eficácia.Também distribúimos escovas e creme dental para todos so alunos que se submeteram à técnica de ART,e a cada dia,antes de cada sessão,eles recebiam instrução de higiene bucal.
Muitos fatos me chamaram a atenção durante todo esse tempo. Da hospitalidae de pessoas tão carentes e que têm muito a oferecer ,até a total falta de descaso para famílias que vivem à margem da sociedade e tão próximas do progresso, da globalização,mas que parecem ter parado no tempo....
Durante a reunião com os pais dos alunos, ouvi de uma das mães o relato de que ninguém na casa dela possuía escova de dente:"Escova de dente na minha casa? È luxo...". Muito complicado, é preciso ter muita cautela para não parecer o "dono da verdade", ou o "cara que veio de fora e acha que tá certo, que pode impor". Saber ouví-los é essencial.Compartilhar o saber é crucial.
Algumas crianças me chamaram a atenção, mas especificamente uma,um garotinho de oito anos de idade,mas que aparenta ter cinco anos. Filho de pais separados, Renato vive com a mãe numa casa simples a alguns quilômetros da escola. A hora do recreio é a alegria de todos, e em especial de Renato, que repete a merenda diversas vezes,três,quatro vezes... Talvez a única refeição do dia.Renato já foi esquecido na escola por sua mãe várias vezes, então as professoras o levam pra casa delas. Incrível como elas se dedicam a eles como se fossem seus filhos. Cecília foi outra que chamou minha atenção. Cecília sofre de degeneração muscular, não faz tratamento e sua situação piora a cada dia. Mas sua mãe a leva a escola com frequência.
Renato e Cecília são apenas alguns exemplos,e suas hitórias não terminam aqui...


amilton


PS.: Os nomes são fictícios.

Doces, Doces e Doces


Nosos valores são moldados diariamente, seja na convivência no lar, seja na escola, seja nas relaçoes no trablaho, enfim, estaremos sempre adquirindo novos valores, e mudando sempre.
Assimilar novos conceitos e novos hábitos é extremamente necessário para nos posicionarmos diante do mundo, diante de nosso mundo, de nossa vida cotidiana. Esse valores e hábitos quanto mais saudáveis melhores para cada um de nós. As noções básicas de higiene bucal devem ser iniciadas no lar, e dessa forma os pais devem dar exemplos a serem seguidos. Na prática, na grande maioria, não funciona bem assim. Muitos pais não cuidam como deveriam da saúde bucal de seus filhos, talvez não tiveram acesso a informação e não praticam bons hábitos de higiene bucal. Os filhos, então, não veem diariamente o exemplo do bom uso da escova, do fio dental, da alimentação saudáveis etc etc. Muitos ainda estão à margem de toda informação, e alguns quando possuem acesso fácil a uma variedade de informações não aplicam devidamente, não praticam.
Uma mãe tentava desesperadamente fazer com que sua filha de seis anos entrasse no consultório odontológico para consulta, mas a garotinha não mostrava interesse algum, e chorava, e chorava... Foi então que,subitamente, a mãe começou a falar alto,"-Filha, vamos entrar no consultório,quando sairmos daqui mamãe vai comprar muitos chicletes e pirulitos pra você..."".A garotinha calou-se, silêncio total, e ficaram paradas as duas na porta do consultório, e eu sem acreditar naquilo tudo, de boca literalmente aberta. A garotinha entrou, sentou na cadeira, e começamos a conversar. Separadamente conversei com a mãe e expliquei a importância de estimular uma alimentação saudável, e não o consumo exagerado de doces e balas,principalmente na porta do consultório. Vejo muitos pais e escolas estimulando o consumo de doces exageradamente,sem regras,vendidos na cantina da escola,consumidos na sala de espera do consultório.Certa vez ,eu distribui escovas e creme dental numa escola, além do trabalho educativo,e no dia seguinte o pessoal da ação social passou distribuindo chicletes, pirulitos. No dia das crianças, muitas escolas distribuem como presentes sacos e mais sacos de chicletes,pirulitos. Conversar, explicar para todos a importância de uma alimentação saudável para evitar a doença cárie,e estimular hábitos saudáveis são estratégias que devem ser constantes na rotina de trabalho,mesmo nos deparando com casos como o citado anteriormente. Mas se começarmos desde cedo possivelmente teremos um geração bem mais consciente.

amilton

A Invasão do Consultório


Quantos caminhos podemos seguir sem sair da rota traçada?
Quantos personagens personificamos diariamente?
Qual o nível de lucidez aceitável?
E o que é normal?
Muitas perguntas podem ser levantadas, poucas respostas poderão ser colocadas diante de nossas incansáveis dúvidas, que muitas vezes nos deixam extasiados no meio do caminho. Muitas vezes sofremos com inúmeras dúvidas, com medos que não nos levarão a lugar nenhum, a não ser percorrer rotas mais longas, caminhos mais tortuosos. No final, poderemos chegar marcados com "manchas" de insensatez, de vazios que não foram preenchidos, de tempos que foram inutilmente perdidos...
Já falei algumas vezes sobre loucura, e inúmeros pacientes já "surtaram" na minha frente, já me colocaram em situações das mais inusitadas. Incrível como ,muitas vezes, a imagem não quer dizer simplesmente nada,absolutamente nada, e realmente o que importa é o conteúdo.
Há cerca de vinte dias atrás, um rapaz de aproximadamente 28 anos, que já havia sido atendido no consultório e que sempre o víamos como uma pessoa "normal",invadiu o consultório numa noite de sexta-feira. Pois é, ele chegou extremamente alterado, foi lgo entrando, empurrando a mãe de uma pequena paciente que estava sendo atendida. Por sorte ele me encontrou num dia em que eu estava numa paz tremenda, numa calma franciscana. E ele foi logo gritando,falando que eu tinha que atendê-lo etc etc. Olhei pra ele calmamente, confesso que ele me assustou um pouco, os olhos dele diziam muito, não parecia ser a mesma pessoa que conhecíamos, literalmente parecia se tratar de outra pessoa.O ódio estava estampado na cara dele. Falei que poderia atendê-lo,mas somente após todos os outros pacientes serem atendidos, então eu o atenderia. Ele saiu,e a mãe da paciente já assustada, a criança começou a chorar desesperadamente, gritava,gritava, e a auxiliar já cogitou a possibilidade de ligar pra polícia,mas falei que não, não precisaria.Porém,minutos depois ele retorna, mais alterado ainda e nos ameaçou dizendo que teríamos que atendê-lo e saiu batendo a porta com uma força descomunal. Dessa vez fiquei nervoso,mas agora agradeço por ele não ter ficado no consultório, e ter saído correndo, não sei o que aconteceria,pois eu já tinha perdido minha "santa" paciência.
Terminamos de atender todos os pacientes e resolvemos ir até a delegacia fazer um boletim de ocorrência, e ao chegar lá descobrimos através do escrivão que o rapaz já tinha três processos contra ele,todos por agressão. Eu e a auxiliar ficamos imaginando mil coisas que poderiam ter acontecido momentos antes no consultório...
Mas o pior veio no dia seguinte, quando ao encontrar casualmente com o escrivão na rua ele me falou que o rapaz tinha sido preso na noite anterior, não por ter invadido o consultório,mas porque ao sair do consultório ele entrou numa igreja evangélica e quebrou tudo,tudo mesmo. Fiquei mais assustado ainda, e pensando que talvez a intenção dele era quebrar todo o consultório, mas como nem eu e nem a auxiliar reagimos ele saiu e foi quebrar a igreja evangélica mais próxima.
Só agora estou contando tudo isso que aconteceu numa sexta-feira, dia 5 de Junho, porque o delegado me ligou perguntando se eu gostaria de levar o processo a frente, e por coincidência cruzei com o rapaz a alguns minutos atrás, e ele parecia outra pessoa, deu bom dia e tudo e saiu sorrindo com a cara mais cínica do mundo. Daí não sei se ele é louco mesmo ,se estava com um baita de um problema, se costuma "surtar" frequentemente. Sinceramente não sei, só sei que o que ele fez não foi correto, e ainda estou na dúvida se levo o processo a frente ou não. Agora penso que ele já ficou preso uma noite, que ele precisa mesmo é de tratamento, de ajuda, e por isso não vou querer ficar frente a frente com ele num tribunal. Espero que ele não vista mais a máscara de um personagem distorcido da realidade e venha me perturbar em plena sexta-feira a noite... Não,numa sexta-feira a noite não, não é justo.

amilton

Prefiro ser eu mesmo...


Fora do consultório ,longe dos problemas diários de cada paciente, da rotina de atendimento, é sempre bom e saudável esquecer um pouco a realidade,mas sempre que descobrem que estão falando com um dentista,algumas pessoas acabam aproveitando a oportunidade e fazendo,literalmente,uma consulta na rua mesmo,no shopping,ou até mesmo em bares,restaurantes e shows. Já fui vítima de inúmeras situações... e agora,lembro-me, de uma senhora que no meio de um show descobriu que eu era dentista e passou a me perseguir,aonde eu ia lá estava ela abrindo a boca e mostrando o canino dela que "ela achava que era maior que o outro do outro lado". Bem, foi um teste de paciência, ela queria porque queria que eu cerrasse o dente dela no outro dia. Fui muito,mas muito paciente mesmo tentando explicar que não poderia cerrar o dente dela,mas que ela me procurasse no consultório.... depois de umas 3 doses de vodka falei-"Por favor,não se preocupe,amnhã eu cerrarei seu dente, e todos os outros que a senhora desejar...", e ela saiu feliz. Ela nunca apreceu no consultório,e olha que ela nem estava muito embriagada.
Outra vez foi um policial que de tanto me perturbar que precisava restaurar um dente, acabei falando que ele poderia ir ao consultório outro dia. Dia seguinte ele estava lá,com viatura e tudo,caso que já relatei no post anterior"Doutor,você está preso". Ele se consultou no meio da festa, e depois ainda foi ao consultóiiro odontológico e pregou uma tremenda pegadinha.
Prefiro ser eu mesmo... fora do consultório.



amilton

Esteretizar


A curiosidade que nos acompanha, que nos leva a descobrir coisas novas a cada momento pode ser encarada como um processo normal de esclareciemnto de dúvidas geradas diariamente,só não podemos nos tornar "chatos" que duvidam e questionam sempre tudo,tudo... Muitos pacientes às vezes nos bombardeiam com uma infinidades de perguntas, sobre o procedimento a ser realizado, o que é deveras importante o feedback, perguntas sobre aspectos pessoais de nossas vidas às vezes também surgem. Antes do carnaval, uma paciente começou uma série de perguntas antes do atendimento, já sentada na cadeira odontológica me bombardeou com muitas perguntas, e a última delas era "aonde eu iria passar o carnaval e se eu poderia levá-la junto...". Pois é,na maior tranquilidade ela falou que queria passar o carnaval comigo, e eu fiquei alguns segundos sem saber o que responder,mas logo falei que não tinha possibilidade,mudei de assunto completamente e comecei o procedimento. Depois desse dia, ela não retornou mais ao consultório... Casos assim são complicados, temos que ter muita cautela mesmo, e agir dentro dos preceitos éticos ,e sempre respeitando o paciente,e que ele nos respeite também.
Mas a curiosidade de uma paciente hoje, que foi logo falando-"Doutor, quanto tempo demora para esteretizar tudo?". Bem,esterilizar demorar alguns minutos,expliquei... E ela tornou a repetir-"Esteretiza em minutos ,é?!",e eu respondi-"Sim, esteriliza em minutos...". Mas não "caiu a ficha" nela-"Sério doutor, esteretiza tudo em pouco tempo?", e eu-"Sim senhora, esteriliza tudo em minutos". Resolvi começar logo o procedimento e não prolongar o processo...

amilton

O Assalto


Muitas vezes planejamos nosso dia,nossa rotina,mas subitamente acontece o inesperado e todos os planos que estavam traçados mudam bruscamente. E nem sempre estamos preparados , e não raro o novo provoca ansiedade,gera dúvidas.
A alguns anos atrás, numa manhã esperada para mais uma rotina de trabalho: acordar cedo,chegar ao consultório e começar a trabalhar, tudo bem se ao chegar na entrada da clínica eu não fosse barrado por vários policiais. Isso mesmo, inúmeros policiais e várias viaturas da policia militar estavam em frente à clínica. Era uma manhã agitada bem no centro de Fortaleza, e o consultório ficava de frente para uma agência do Bradesco.
Ao tentar entrar fui barrado pelos policiais que me explicaram do assalto à agência bancária,e que um dos assaltantes provavelmente estaria dentro do consultório. Indaguei sobre a possibilidade de ter reféns, e eles falaram que não,pois o assalto ocorreu nas primeiras horas da manhã,e nem a auxiliar havia entrado na clínica ainda. Tensão do lado de fora, curiosos e mais curiosos,e depois de algumas horas os policiais descem com o assaltante algemado. Ele tentou assaltar o caixa eletrônico da agência bancária, não teve sucesso, e entrou dentro da clínica,escondeu-se dentro do freezer... Daí fiquei pensando se não tivessem percebido a fuga dele para dentro da clínica, como teria sido o desfecho?!? Quero nem pensar mais sobre isso....
Tirando essa situação que gerou medo e ansiedade, outras vezes já me envolvi em histórias no consultório odontológico relacionadas com ação policial,mas essa foi muito séria...
Ainda trabalhei alguns meses depois desse fato na referida clínica,mas esse episódio me marcou profundamente.


amilton

Preso no Consultório


Acabei de sair do consultório e atender minha última paciente, uma criança de 3 anos que gritava,gritava,gritava... E essa não foi a primeira sessão de atendimento dela. Foi complicado fazê-la aceitar o tratamento,porém, não foi possível fazer com que a mesma não gritasse constantemente durante todo o procedimento. Ela grita,grita,grita,mas deixa fazer tudo direitinho. Agora fico aqui imaginando, se fosse essa pequena paciente que estivesse sendo atendida a alguns anos atrás, numa tarde à qual fiquei preso dentro do consultório sem poder abrir a porta por durante 4 horas. Pois é, não sei como seria mesmo... ainda consigo ouvir os gritos dela mesmo depois do término do atendimento,ela longe e eu aqui...
Naquela tarde atendia a um senhor, tudo dentro dos padrões esperados,porém,quando foi finalizado o atendimento, e a auxiliar dirigiu-se para abrir a porta ,simplesmente ela não abriu. Tentou-se uma,duas,três vezes e nada... estávamos trancados,eu,auxiliar e paciente. Na sala de espera mais algumas pessoas que em vão tentaram abrir a porta por fora,mas nada, e nem trancada à chave a porta estava. Cogitamos arrebentar a porta à força,mas eu não concordei. E durante as quatros horas que se passaram,eu,auxiliar e paciente já não tínhamos mais papo para conversa:política,economia,filmes,novelas,tudo já tinha sido abordado e o paciente já estava nervoso, e eu ficando cada vez mais apreensivo.Ligamos para um chaveiro,o único da cidade,por isso ele demorou tanto a chegar e abrir a porta em alguns minutos,depois de quatro horas. Mas no final tudo foi resolvido. Toda a fechadura foi trocada, e nunca mais fiquei preso no consultório...

amilton

Grau no Dente



A forma de se expressar de cada um relaciona-se com vários padrões que vão desde a vida cotidiana até aspectos culturais que implicam aí pontos importantes,e, então, demonstramos através de gestos, palavras, tudo aquilo que queremos expressar. Incrível como muitos pacientes encontram formas tão díspares de se expressar e que me surpreendem,me fazem rir também.
Ontem um senhor, depois de causar muito tumulto na sala de espera, entrou no consultório e falou logo:
-Olha, dá pro senhor dá um "grau" no meu dente?
-Dá um grau?, perguntei.
-Sim doutor, olha ai como tá feio(abriu a boca logo da porta de entrada)...
-Sente ,então ,que vou tentar ver se o grau poderá melhorar seu sorriso...
O grau foi feito através de uma restauração de resina classe 3, e ele saiu falando que precisava dar o "grau" em todos os outros dentes,então falei que retornasse para melhorar o "grau" da boca dele (rsrs).
Lembrei de um paciente que insistiu para que eu fizesse um Refinamento nos dentes dele, relatado em post anterior.
Como é importante saber se expressar,e melhor ainda,muitas vezes, saber decifrar a linguagem usada em muitos regionalismos quando falamos de um país de dimensões tão grandes quanto o Brasil.

amilton

Motorzar o Dente


Ontem uma senhora chegou ao consultório para ser atendida, ansiosa,ao sentar na cadeira odontológica começou a falar desesperadamente. Eu não tive chance de dizer nem um "olá,tudo bem?", pois ela não parava simplesmente de falar. Uma metralhadora de palavras,muitas sem nexo,sem sentido.Eu já estava cansando ,e queria logo começar o atendimento, quando ela soltou:"olha só doutor, eu só vim aqui pra você "motorzar" o meu dente,nada mais que isso...". Olhei pra ela e disse: " Motorzar?!", e ela respondeu-"Sim,motorzar e com muiuto cuidado,certo?!".
Sinceramente,eu ainda não tinha ouvido essa expressão motorzar dentro do consultório,e nem tinha conjugado esse verbo...
Ela parou de falar,o procedimento começou a ser realizado,mas a todo instante ela repetia-"Cuidado com o motor!!"- e eu recomeçava novamente a restauração. Foi um teste de paciência isolar a boca dela porque a todo momento ela falava algo. Lembrei de muitos pacientes que usam a cadeira odontológica como Divã, o que já relatei anteriormente num post. Eu gosto de ouví-los, gosto de saber o que pensam,gosto de imaginar o mundo deles como se eu fosse um personagem da vida deles também.
Mundos diferentes, pessoas completamente diferentes, lições de vida a cada momento,basta ter paciência para ouvir...

amilton

"Desculpa doutor,agarrei sua perna"


Qual a nossa reação diante do medo, do inesperado? Múltiplas reações podem ser observadas no consultório odontológico, e confesso que já vi de tudo... já vi paciente rezando em voz alta, chorando compulsivamente, vomitando, tossindo etc etc.
Certa vez uma jovem paciente durante a realização da anestesia agarrou fortemente na minha perna direita. Eu trabalhava em posição de 12 horas, e senti a mão dela agarrando minha perna,então pedi para que ela colocasse a mão sobre o encosto da cadeira odontológica. Ela o fez,mas segundos depois retornou a mão sobre minha perna,e agarrava tão fortemente que comecei a ficar nervoso,incomodado. No começo não sabia o que fazer. Nessas horas temos que ter paciência, pois acreditei ser apenas uma reação impulsiva ao medo provocado pela anestesia. Mas vieram as outras consultas, e nas próximas continuou a mesma ação: qualquer procedimento que eu iria realizar na boca da paciente ela instantaneamente agarrava a minha perna. Eu já ficava de prontidão,e esperava que a mão dela não subisse mais que aquilo ali,e pedia para ela retirar a mão da minha perna e colocar sobre a cadeira. Ela sempre pedia mil desculpas,mas dizia que não tinha controle sobre agarrar minha perna ;"Desculpa doutor,agarrei sua perna...".
Essa semana uma paciente começou uma crise exaustiva de risos. Ela simplesmente não parou de rir um só minuto durante todo o atendimento. Saiu do consultório rindo, apesar da anestesia troncular.


amilton




Falso Dentista


Há alguns anos atrás, um colega dentista trabalhava numa cidade vizinha à qual estou trabalhando hoje. Existe uma grande quantidade de práticos,ou seja, falsos dentistas atuando,certo que esse número vem diminuindo gradativamente graças ao constante esclarecimento da sociedade e trabalho feito pelos Conselhos Regionais de Odontologia. Mas eles ainda existem, não só aqui,mas espalhados pelo Brasil...
Mas o que quero relatar , é o fato que aconteceu especificamente com esse colega. Ele denunciou o prático que exercia ilegalmente a profissão de dentista na cidade. O Conselho Regional de Odontologia agiu rapidamente, o consultório foi fechado,o material apreendido e o falso dentista foi preso. Porém, meu colega ficou numa situação extremamente complicada. E o inesperado aconteceu...
Acreditem, a prefeita da cidade expulsou literalmente o dentista, e ainda falou:" O Dentista sai, e o prático fica,pois no período de eleição quem me ajuda é ele, e não o doutor...". O prático foi libertado, o dentista saiu da cidade sem ao menos receber o último salário...
Nada mais foi feito. Nada além disso que relatei. O falso dentista voltou a atuar num consultório montado dentro da casa dele. E como ele existem inúmeros ainda...
Citei esse caso por querer levantar questionamentos a cerca da valorização da Odontologia, do papel dos Conselhos Regionais de Odontologia, das entidades de classe como o Sindicato dos Odontologistas etc etc.
Fica aí a mensagem...


amilton



abraçoss

"Doutor, eu quero vomitar"


Lendo o blog Te vejo por Dentro,da colega Kellen, lembrei deste caso que aconteceu a alguns anos. Numa manhã de atendimento, pacientes na sala de espera, rotina normal. Uma senhora entra para ser atendida, demonstrava extremo nervosismo,tanto que já foi logo perguntando se eu iria anestesiar,pois ela preferia que o procedimento fosse feito sem anestesia,então respondi que tudo bem,assim seria... O procedimento foi realizado, ela foi embora,mas minutos depois,quando já estava atendendo outro paciente a senhora bate na porta do consultório, e diz com cara de assustada :"Doutor, eu quero vomitar...". Fiquei olhando pra ela,e na hora não sabia que atitude tomar,então disse que ela não poderia vomitar dentro do consultório, que fosse ao banheiro,e que conversasse com o médico que estava na sala ao lado. Terminei de atender e fui saber como ela estava, e notei um grande alvoroço nos corredores. A paciente desmaiou,vomitou,caiu no chão literalmente,e foi levada ao hospital. O procedimento que foi feito não justificava o desmaio,o vômito... uma restauração classe I de amálgama,sem anestesia. Ao conversar com o médico ,ele disse que se tratava de uma paciente "pitiátrica",pois só foi ela colocar os pés no hospital melhorou subitamente. Acho que ela queria mesmo era chamar a atenção de todos,e do marido dela que foi ficar ao seu lado,quem sabe, talvez...
Essa paciente não chegou a vomitar no consultório,mas teve outro que vomitou literalmente na minha perna,encerrando a manhã de atendimento naquele dia... se tive nojo? Bem,na hora eu ficava só olhando se era verdade ou não,custei a acordar e sair pra me limpar. O paciente pediu mil desculpas, eu disse tudo bem,normal,isso acontece. Mas normal não é não,pelo menos ninguém nunca mais vomitou na minha perna até hoje... e espero que não vomite mais!!!


amilton


abraçoss

A Cidade Mística


Essa aconteceu a alguns anos. Eu estava começando a trabalhar na cidade, ainda não estava familiarizado com tudo. Uma tarde de atendimento, sala de espera lotada, paciente sendo atendido, quando de repente começou uma confusão lá fora. Eu fiquei apreensivo, e pedi a auxiliar que fosse verificar qual o motivo de tudo, e quando a porta foi aberta uma senhora entrou toda assustada no consultório. E falava sem parar,não me dava chance de perguntar o que estava acontecendo. Só falava, falava... disse que precisava ser atendida logo, que não podia esperar, e por isso todos estavam com "ódio" dela, pois ela queria furar a fila. Expliquei que o atendimento funcionava por ordem de chegada, a não ser que fosse um caso de emergência, o que não era o caso dela. Daí perguntei o motivo pelo qual ela não podia esperar, e ela falou que precisava ir na cidade mística visitar a filha dela.
Que cidade mística é essa? Um centro holístico? Sobrenatural? Tudo poderia ser possível... Claro que pensei tratar de uma paciente com distúrbios psicológicos, e pedi à senhora que aguardasse um pouco, que por favor se acalmasse, pois eu já estava ficando nervoso e muito curioso em conhecer essa cidade mística. Juro que se não tivesse um paciente sentado na cadeira eu teria ficado conversando com ela sobre essa cidade mística (rsrs).
Ela saiu do consultório, e não ouvi mais vozes na sala de espera.
Ela desapareceu... Fiquei preocupado. Mas alguns minutos depois me explicaram que não existe cidade mística nenhuma. Existe sim a Unidade Mista, o hospital da cidade.
Muito tempo depois encontrei com ela novamente, e ela disse que não poderia conversar muito comigo porque tinha uma consulta na Cidade Mística, e saiu apressada me deixando sozinho.


amilton



abraçosss

"Doutor, sou antialérgica"


Inesperadamente muitas situações ainda me pegam de surpresa, e muitos pacientes que chegam até o consultório criam situações únicas,momentos cômicos, tristes...
Uma senhora por volta dos sessenta anos ao entrar no consultório foi logo falando que "doutor, sou antialérgica" . Olhei pra ela e perguntei " a senhora é antialérgica ?". "Claro doutor,por isso não use muita coisa na minha boca não". Bem, pensei, se ela for antialérgica tá tudo muito bom, tudo muito claro, daí nada a fará nenhum mal.
Depois de alguns minutos de conversa, a paciente acabou explicando que sempre tinha alergia a muita coisa,mas que nunca tinha passado mal no consultório odontológico,mas sempre tinha alergia a vários medicamentos, e que nunca deixou usar anestesia local em procedimentos dentários.
E não seria eu o primeiro a arriscar, mesmo afirmando ela ser antialérgica !!


amilton



abraçosss

Paciência


Somos testados a cada momento, e a paciência que alguns possuem e outros buscam também, às vezes ,parece não nos acompanhar. De pacientes impacientes, muitas vezes, também somos vítimas dela, mas também somos causadores de impaciência, e não raro, desestabilizamos relações,momentos... A busca incessante do ser em sintonia com o universo parece tão distante às vezes que esquecemos dela,da paciência a ser trabalhada a cada instante.
Tem dias que a procuramos e nada, não a encontramos,mesmo fazendo um tremendo esforço ela não aparece. Contamos até dez, vinte, contamos carneirinhos, ovelhas, vacas etc. Muitos fogem do real,mas fogem tanto que se perdem, "viajam" literalmente. Confesso que já "viajei" muito,mas a busca do ser paciente é uma conquista valoroza, diária,vitoriosa.
Dos pacientes e situações que podem nos tirar a paciência, desses não estamos imunes. Do paciente que já chega ao consultório dando o diagnóstico,receitando o medicamento,solicitando o exame etc. Dos atrasos, e nenhuma desculpa, e das faltas e nenhuma ligação,nenhum contato para avisar que ele, o paciente ,irá faltar à consulta. Daí já partimos da paciência para falta de educação mesmo...
Que sejamos todos nós abençoados sempre pelo dom da paciência.
E só para refletirmos um pouco:

" A paciência é a chave para tudo. Você consegue a galinha chocando o ovo, e não quebrando-o" Arnold H. Glasgow

"Se há alguma coisa que dá soberania à alma, é a paciência. Qual era o segredo dos mestres que realizaram grandes coisas,inspiraram muitas pessoas e ajudaram muitas almas? O segredo deles era a paciência." Inayat Khan

"Talento significa uma enorme paciência" Gustave Flaubert

"A paciência de esperar é possivelmente a maior de todas: a sabedoria de plantar uma árvore e esperar a árvore dar frutos" John Macenulty



amilton




abraçoss

"Não doutor, não sou doida não..."



Depois de dias sem postar por falta de conexão,mas não por falta de casos, causas, esses são muitos,sempre,diariamente... Cada conversa, cada ato, cada mudança, cada palavra podem trazer um enredo novo, uma reflexão, uma pausa para alimentar a mente às vezes tão cheia de entraves. Muitos pacientes me fazem parar e pensar sobre nossos medos, nossas máscaras, nosso mundo vivido e aquele que eu gostaria de habitar. Aquele que sou personagem único, o guia central da minha vida. Alguns pacientes sempre retornam ao consultório com as mesmas queixas sempre. Depois de um ano, a vida continua a mesma, os problemas são sempre os mesmos, e nada de concreto foi feito para mudar. Uma jovem paciente, casada, cheia de possibilidades,mas com muitos bloqueios,sempre vai ao consultório,mesmo não tendo nenhum procedimento para ser realizado. Às vezes a cadeira odontológica se transforma na única alternativa de falar, de ser ouvida, um verdadeiro divã odontológico.Por mais que eu diga sempre que mudar é preciso, são conselhos milenares,mas situações estacionadas a anos não permitem. A jovem paciente sempre atormentada por fantasmas da solidão, da incompreensão familiar, da falta de atenção de todos ao seu redor,mesmo estando rodeada de pessoas,mas sente-se sozinha,abandonada. Aconselhada a procurar ajuda psicológica ela reluta em aceitar tal fato, simplesmente “não doutor, não sou doida não” ela sempre fala. Então resta-me ouvi-la pacientemente,sempre com a mesma história, com os mesmos lamentos. Já emprestei livros de auto-ajuda, já indiquei atendimento com psicólogo,mas não, ela simplesmente não se ajuda... Será preciso sofrer tanto para cair na real? Talvez sim... A última dela no consultório é que está completamente viciada em ansiolíticos, “não vivo mais sem eles”, afirmou. Longe da ilusão de que “ o paraíso é um comprimido”,mas um mundo falseado, momentâneo.

Será preciso muita força de vontade , e reconhecer-se doente,carente de ajuda especializada,enquanto isso não ocorrer as mudanças não serão concretas. E a vida ficará presa a comprimidos, numa vida comprimida a inúmeras limitações...


amilton



abraçosss


Refinamento


Passar muito tempo sem postar algo gera uma tremenda indecisão,pois acreditem amigos,muitas histórias acontecem todos os dias,muitos casos me surpreendem diariamente. E fica,de certa forma,díficil escolher o mais adequado,então utilizo o recurso da total adequação ao meu estado pessoal. Pois é,dependendo do que sinto e que quero expressar escolho a história mais próxima da realidade a ser dividida com todos. E vamos lá!

Numa única manhã, dois pacientes me surpreenderam,o primeiro deles um jovem,devia ter uns 25 anos e chegou ao consultório reclamando que não necessitava de nenhum procedimento,apenas queria que eu fizesse um "refinamento" nos dentes dele. Sinceramente,nunca tinha feito um refinamento em odontologia,até porque não existe esse procedimento. Indaguei o paciente sobre o que ele realmente queria,e foi ai que me surpreendi mais ainda. Ele relatou que necessitava de dentes mais brancos,entao queria que eu fizesse o tal do "refinamento". Na verdade, o que ele precisava era fazer um clareamento dental. Conversei um pouco com ele e tentei explicar sobre o real procedimento e que na verdade,numa verdade crua e excludente, um consultório público não realiza clareamento,e que ele deveria procurar um consultório particular,pois o SUS não cobre esse tipo de procedimento. Foi aí que ele virou-se,olhou com espanto e perguntou: "E entao doutor,aonde eu acho esse tal de Susi?" Gargalhadas a parte,tentei resumir em alguns minutos toda a nossa política pública e que ele poderia até exigir melhor atendimento e cuidado ,pois "esse tal de SUS "deve isso a ele,pois o que parece de graça,na verdade sai muito caro através dos impostos que ele,eu e você pagamos todos os dias. Fiquei mais aliviado,o paciente pareceu entender um pouco e saiu sabendo que pode exigir mais,mesmo não recebendo o que é certo do sistema.

Nessa mesma manhã de atendimento,um outro paciente,dessa vez um senhor de 63 anos insistiu para que eu cerrasse seus dentes! Isso mesmo! Cerrar, aparar! Ele insistia que os dentes teriam que ficar iguais aos da dentadura que ele utilizava. Tive vontade de rir,mas comecei a explicar que quem estava errado era a dentadura,essa sim precisava ser consertada, ou entao, providenciar uma nova prótese. Eu já estava perdendo a paciência porque ele não aceitava a hipótese de trocar a dentadura,e sim ,queria que os dentes fossem cerrados. Depois de muitos minutos de conversa,ele chegou à conclusão que realmente a dentadura estava em péssimo estado,mesmo tendo sido feita recentemente. Foi ai que perguntei como ele tinha conseguido a dentadaura,aonde e qual dentista. Mais surpreendente foi ele afirmar que escolheu a dentadura de dentro de uma caixa com várias outras, e aquela era a que mais parecia com os dentes dele. Triste mais verdade. A marginalização de um sistema excludente,que não prioriza a equidade e muito menos as necessidades individuais dos mais carente somente acabrá resultando em problemas cada vez mais graves. Volto a repeteir a mesma questão: o sistema que extrai de forma cruel os dentes de um cidadão não é ainda capaz de repor ,de forma a garantir sua estética e fisiologia. Ele saiu do consultótio e não pude lhe garantir uma resolução viável para seu problema,a não ser que ele deveria procurar uma solução adequada,e mais cara para ter de volta seus dentes. E talvez ele nem siga essa rota...