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Sobre dentes, vida travestida e arco-íris


       Quando eu pensava que o ano acabaria melancólico, monótono, subitamente dois pacientes me deram de presente a história a seguir.
Nas primeiras horas de atendimento, véspera de fim de ano, eis que dois pacientes chegam ao consultório odontológico exalando um odor de álcool que impregnou o ambiente. O primeiro, um senhor de 65 anos, e o segundo 45 anos enfiados numa calça colada ao corpo e cabelos longos. Dispararam histórias como metralhadoras em campo de guerra. Primeiro fizeram questão de ressaltar que fossem chamados, ou melhor, chamadas, pelos nomes de Condoliza Blight (certamente alusão à Condoleezza Rice) e Emanuelle Ponto Com (isso mesmo, como um sítio na web), e não esconderam o desejo de ser feminino ao extremo. Riam a todo instante, insistiam em abraçar-me constantemente. Tornaram-se o centro das atenções como celebridades seguidas por paparazzi, porém sem flashes nem autógrafos.
O mais velho falava a todo instante: -Vida boa é a sua - e dava grandes risadas seguidas pela mesma história: a ausência de todos os dentes o estava incomodando fortemente. O que o fez sentir a falta dos dentes, segundo ele, foi terem dito que suas pernas eram lindas, porém sua boca era feia. Isso o deixou literalmente desapontado, queria desesperadamente os dentes de volta. Vestia uma saia vermelha curtíssima  para exaltar mais as pernas do que a boca desdentada.
Os dois desejaram paz, amor e um feliz ano novo para todos os presentes, resumiram em poucas palavras o que tudo significava para eles: -"Vocês podem rir, isso não faz mal, mesmo sem os meus dentes eu ainda consigo sorrir, mesmo tendo dívidas e mais dívidas eu ainda consigo sorrir, sofrendo preconceitos, humilhações, sendo ridicularizada por mentes vazias, eu ainda consigo sorrir, mesmo sabendo que vida boa é a sua...”, -falou Condoliza.
Talvez não, Condoliza Blight, talvez vida boa seja a sua, que supera diariamente preconceitos, dificuldades físicas e emocionais e as transforma em comédia, faz as pessoas rirem por puro prazer de ver um sorriso estampado em bocas que refletem aquilo que você gostaria para você. Imagens claras de um mundo que não é seu, porque o seu mundo é mais colorido, um arco-íris ilumina seu rosto.
Os dois foram orientados a retornar em outro momento para que uma prótese fosse confeccionada para Condoliza, ele insistia em ser chamado assim, e saíram de mãos dadas rindo da vida...


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A Gafe

 
       Uma senhora de 60 anos de idade mostrou-se apreensiva,insegura e demonstrou medo excessivo ao entrar no consultório odontológico.Ela estava acompanhada de um jovem de aproximadamente 28 anos que demosntrou sempre estar  calmo e sério. -A senhora pode entrar com o seu filho!-Falei tentando acalmá-la, e o jovem saltou de lá com uma voz séria e contundente: -Ela não é minha mãe,é minha mulher!. Bem,fiquei com cara de bobo,tentei disfarçar a gafe e falei: -Sua esposa,certo! Então,por favor,entre com sua esposa.E os dois entraram no consultório...
          Ela poderia ser a avó dele, a mãe dele,mas era a esposa dele.
          Logo de cara,ao vê-la na sala de espera notei diferenças no comportamento,no modo de vestir.Ela usava um vestido bastante jovial para a idade,róseo,meio colado ao corpo(nada de Geisy da Uniban,esqueçam! hehe),e um batom vermelho ao extremo.Pois é,ela fisiologicamente tinha 60 anos,mas a sua idade psicológica era outra completamente diferente,a começar pelo companheiro.


          Ao tratar o casal por mãe e filho,certamente não fui preconceituoso,longe disso.Apenas cometi uma gafe que me deixou vermelho por minutos,e completamente sem jeito também.Mas adorei ver aquela senhora casada com um jovem,e feliz da vida.
         Lembrei do magnífico filme O Leitor,e a bela atuação de Kate Winslet no papel de uma senhora que vive um caso de amor com um adolescente.Novelas,filmes e seriados tentam atualmente caracterizar cada vez mais a situação.Cougar Town(essa eu adoro,Courtney Cox tá perfeita,hilária) e Accidentally on Purpose são dois seriados americanos que mostram duas jovens senhoras `as voltas com relacionamentos mais jovens.E por ai vai...
       E olhem que esses filmes,seriados e novelas,muitas vezes retratam a situacão dentro de uma sociedade complexa e até,talvez,menos preconceituosa que a de uma pequena cidade do interior nordestino,aonde vivo e trabalho,e aonde essa senhora quebra regras e age dessa forma,não se intimidando com os preconceitos que por aqui existem aos montes,como existem também em Nova York,São Paulo,Tókio etc.
      E vivam as diferenças,e pausa aos preconceitos...
         

E a minha dentadura, cadê??!!


O reencontro sempre trará a possibilidade de nos depararmos com velhas atitudes, velhos conceitos,e muitas vezes,rever trajetórias... É esse o caminho que percorremos! E o mundo dá muitas voltas,muitas reviravoltas!
Ser incapaz de mudar certas atitudes,permanecer dentro do mesmo círculo vicioso parece ser o caminho mais fácil....
Quem frequenta sempre este blog deve lembrar daquela senhora da" presa mestra", aquela que tinha somente um dente na boca e que infelizmente necessitou extraí-lo. Pois é amigos, ela voltou!! Como voltou? Simples,mas triste! Durante a semana a encontrei dentro da Unidade de Saúde que trabalho,a intenção dela não era fazer uma consulta odontológica,mas ao me ver foi logo falando em voz alta:"E a minha dentadura,cadê?"... A mais pura verdade,ela necessita urgente de uma dentadura,pois somente os dentes artificiais irão recompor, em parte,cerca de 20% da sua mastigação, voz,estética,e só assim ela voltará a ter uma vida mais saudável.Mas como ela conseguirá? O Nosso sitema é muitas vezes injusto,e não disponibiliza um atendimento integral,como a recomposição da arcada dentária através de uma prótese,por exemplo. É claro amigos,que existem exceções,raras,mas existem,aonde haverá continuidade no atendimento,possibilitando mais conforto e satisfação ao paciente que procura o serviço público. Pois,geralmente ,quem procura esse tipo de atendimento não tem outra alternativa,mas muitas vezes ele é tão falho que não cumpre seu papel fielmente.
Não é de se estranhar que temos um modelo de sistema público muito bem estruturado,mas apenas na teoria,porque na prática não funciona tão bem assim... Aí surgem os famosos distúrbios sociais,como a marginalização,o preconceito,a fome,a miséria total e absoluta. E é o nosso dinheiro que está sendo mal empregado,são impostos que pagamos... E vamos continuar pagando por muito tempo,e as pessoas mais carentes ,infelizmente irão continuar marginalizadas. Sem dentes,sem comida,sem emprego,sem voz e nem vez! Até quando?
Poderia continuar citando inúmeros problemas,mas todos são visíveis,estão na nossa cara,estão na esquina da nossa casa,na porta do nosso trabalho...
Podemos começar mudando dentro de nós,na nossa casa,no nosso trabalho,na nossa rua,no nosso bairro. Mudanças pequenas,mas significativas.
Abraço a todos