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Crônicas de vidas na cadeira odontológica

    Depois de alguns anos escrevendo por aqui, retratando histórias e compartilhando vidas que se delinearam através das idas ao consultório odontológico. Chegou o momento de trilhar novos caminhos...
    As "Crônicas de vidas na cadeira odontológica" representam o melhor já publicado por aqui e algumas novidades, novos personagens, muitos destinos, várias possibilidades.
   Espero que as histórias contadas aqui, surgidas a partir deles-os pacientes-porque sem eles não existiria este blog, não se concretizaria o livro-possam fazer com que a Odontologia seja vista cada vez mais como parte de um todo, de um coletivo, e que possamos cada vez mais sair do consultório e chegar até milhões de desassistidos.
           Bocas, dentes e gengivas são reflexos das condições sociais, e o papel assumido pela Saúde Bucal Coletiva deve ser expandido, vivenciado, experimentado a cada momento, a cada palavra, a cada gesto...
     Estejamos sempre dispostos a ouvir, fiquemos sempre "De Boca Aberta" para o mundo...
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Sem roupa e sem dente

  Muitas histórias ainda podem surgir de situações inesperadas e advindas de estranhos, de inimagináveis e improváveis pacientes que na primeira impressão me parecem tão normais quanto desejo que os sejam. Mas nem tudo é exatamente como desejamos...
   Quando uma senhora de aproximadamente 50 anos terminou de ser atendida, a sua saída da cadeira odontológica era aguardada sob a mais tranquila e"normal"ação permeada pelo sobe e desce da cadeira. A espera do próximo paciente foi,então, quebrada por um questionamento um tanto inusitado da paciente que soltou:
   -Sei que o senhor é dentista! 
   E eu pensando com cara de assustado: -E ela achou que tinha ido aonde? Ao proctologista??
  -Pelo fato do senhor ser dentista nada impede que eu possa mostrar uma mancha na minha perna, nao é mesmo?-Completou ela.
  -Mancha na sua perna? Perguntei, porém antes mesmo que eu desse o último suspiro e fechasse meus lábios aquela senhora levantou completamente a saia e deixou à mostra todo o seu corpo, e tudo para que eu pudesse dar o diagnóstico de uma "mancha".
   -A senhora pode baixar a roupa, já vi a mancha. É necessário que a senhora visite o médico porque nada posso fazer pela mancha na sua perna.
    -Já mostrei "ela"( a mancha)a muitos médicos e nada fizeram, então o senhor também olha boca e talvez entenda de perna também...
    Eu não fui entrar no mérito de discutir a questão relacional (se é que existe) entre a mancha na perna e a boca dela, mas insisti na consulta com o médico.
   Mesmo ela se mostrando reticente acredito que ajudei,pelo menos, aliviando a necessidade que a paciente tinha de mostrar a mancha da perna a um dentista.
   E ela saiu acreditando, ainda, que o dentista poderia ter resolvido o problema da mancha na perna...

SOBRE DENTES, DORES E PERDÃ0

Como tantos pacientes, Lurdes refletiu nas palavras soltas durante os primeiros minutos de atendimento o que seu rosto estampava: tristeza, medo, ansiedade... E a história dela passou a ser relatada como um desabafo, como uma válvula de escape para tantos sentimentos incontidos e incompreendidos.
Da apreensão para tratar o dente “carreado” ( ao referir-se ao dente cariado da forma mais inusitada possível), Lurdes pediu permissão para sentenciar a morte de tudo que a incomodava, de tudo que a atormentava. Não pareceu simples de imediato, mas talvez fácil para quem estivesse disposto a ouvi-la.
O que mais a perturbava, não era o dente “carreado”, era o abandono, a solidão, o desprezo e a violência que sofria do único homem que ela amou, e que agora a trocou por outra mais jovem, largando-a com quatro filhos para criar. Este mesmo homem que ela diz amar loucamente, que diz perdoar incondicionalmente, este mesmo homem a espancou diversas vezes na frente dos filhos, humilhou-a em público, a fez perder um filho ao chutar sua barriga de sete meses.
Eu ouvi tudo, e mesmo depois de seguidas frases e choros Lurdes não dava espaço para que eu me manifestasse. Mas como eu reagiria? A própria iniciou seu relato dizendo que amava este homem, que o perdoava, e o queria de volta mesmo depois de todo o mal que ele lhe proporcionou.
A vida e o destino de Lurdes, de 38 anos, não está nas minhas mãos. Definitivamente ela já tem uma opinião formada. Nem todo o sofrimento a fez mudar, amadurecer. Daí me questiono sobre a normalidade do que passa  a ser para uns e outros, da dor e do perdão que significam para uns e outros não. Para alguns, talvez seja cômodo manter uma dor, sim porque ela sofre duas vezes, com o marido que na presença a espanca e na ausência a faz sofrer querendo a sua volta. Complicado relacionar uma solução...
Lurdes saiu do consultório disposta a procurar o marido e a tê-lo de volta nos braços, mesmo sabendo que possíveis dores físicas e emocionais a aguardavam...

Sobre dores e desafios




                 O mundo  pode nos parecer simples, fácil e muitas vezes colorido, mas nem sempre foi assim na vida de muitos. E muitos dos pacientes com que dialogo constantemente fazem transparecer em seus cotidianos tons diversos e adversos, muitas vezes  cinza e completamente descoloridos. Outros tratam de largar tons vermelhos, amarelos, enfim, muitas cores no que ora lhes parecia preto e branco.
           Quando cada um deles, os pacientes, descarregam suas histórias, fica sempre em minha mente o quanto ainda tenho que percorrer para lembrar quão pequenos são meus problemas, quão descomplicadas são as trilhas que traço e os erros que ora cometo.
          A paciência desapareceu completamente por poucos minutos na vida de Antônia, 30 e poucos anos, mãe solteira, três filhos, sendo um deles deficiente físico. Não havia motivos para que ela surtasse naquele exato momento diante da auxiliar de saúde bucal. O silêncio pairou no ambiente por algum tempo... Foi colocado o tempo adequado para que aquela mãe exorcisasse alguns fantasmas que a atormentam, mesmo que parcialmente e diante de estranhos. Incrível como muitas pessoas se sentem tão confortável em desaguar suas mágoas diante de desconhecidos.
         Quando somente o silêncio nos deu forças para seguir, a mãe desesperada começou a chorar, e depois veio o pedido de desculpas acompanhado do choro da filha de 8 anos.
         E este foi mais um dia, depois de tantas histórias que ousam cruzar meu caminho, e com tão pouco tempo para resumi-las e compartilhá-las, que fico pensando nas dores e angústias de cada paciente que senta na cadeira odontológica e utiliza o pequeno espaço de tempo para criar uma relação de confiança e afeto. Fica a cada um deles, mesmo que carregados de dores e desafios, o meu sincero desejo para que todos os caminhos sejam interligados de paz e harmonia, e que a dor seja passageira, que o tédio seja dizimado pelo calor das poucas e boas palavras, mesmo que de completos desconhecidos.

Dos loucos, alcoólatras e algumas bocas

  Dois casos em menos de 48 horas caíram na minha frente através de duas histórias protagonizadas por pessoas incomuns, caracterizadas por angústias, impaciência,loucura e vícios. Tudo isso chega,sim,a um consultório odontológico público... E são minhas escolhas, e são as escolhas deles,pacientes, que nos colocam frente a frente num enredo caracterizado por tortuosos desfechos.
  A irmã de um pequeno paciente chegou ao consultório e insistiu veementemente que a criança precisava de um clareamento. Até aí tudo bem, mas ela conhecia a boca do menor decorada, cada dente, cada pedaço da boca dele era descrito por ela( juro que me assustei), mas o susto mesmo veio quando ela descobriu meu telefone e passou a me ligar,depois descobriu minha casa e foi tocar a campainha. Então me falaram que ela é bipolar,e coitado de mim, a bola da vez, ou dela,quem sabe. Depois de tanto insistir ela sumiu...
  Vinte e quatro horas depois um senhor alcoolizado entrou no consultório e insistiu que eu extraísse um dente hígido dele e sem anestesia (juro que deu vontade). Esse senhor ainda voltou mais duas vezes,e em todas estava caindo,literalmente bêbado. Deve tá numa ressaca daquelas agora ( e que não volte mais).Certo que outro louco já invadiu o consultório que eu trabalho e queria quebrar tudo. Prenderam ele depois de  sair do consultório escoltado pelo segurança, ele foi tentar quebrar a igreja evangélica da rua ao lado. Passou a noite na prisão pra compensar.
  Pra finalizar, despejo toda carga de boas energias pra quem mora por aqui e pra quem tá lendo essas poucas linhas. Que a paz substitua a loucura de corações aflitos e sedentos de educação, amor, cultura, lazer saudável e paz, muita paz.

O caso da dentadura cariada

           Muitos pacientes são tão caricatos quanto excêntricos ,suscitam minham imaginação e às vezes chego a duvidar da lucidez(deles,não minha ).E graças ao tempo de conversa enquanto abrem-se bocas,acionam-se motores,e mais conversa,e mais... E surgem histórias como esta,que só poderiam ser protagonizadas por eles mesmos,os próprios pacientes,e suas dúvidas,crenças,e medos.Dessa forma, mais um caso meio louco chegou até o consultório odontológico, e eis o fato:
        Um senhor de 68 anos durante exame de prevenção ao câncer de boca foi orientado a usar prótese total superior e inferior.Logo após ser mencionado o nome "dentadura", o senhor falou:
        - Não,nunca usei,faz anos que vivo assim,mas porque quero que seja assim...
        -E o senhor não gostaria de que seja feita uma dentadura? Nunca sentiu falta dos seus dentes?
        -Falta,falta doutor,até que sinto,mas já acostumei...
        Ele completou:
         -Gostaria  mesmo de uma dentadura com obturação,com aquelas coisinhas pretas...
        -Coisinhas pretas? O senhor quer uma dentadura cariada? Obturada?
        -Isso doutor! Acho lindo!!Desse jeito eu até usaria uma,duas até...
        Achei que ele estivesse brincando,ou que num estado de loucura passasse a desejar uma dentadura cariada,obturada com amálgama.Mas era isso mesmo: o sonho daquele senhor era usar uma dentadura com restaurações de amálgama,simplesmente porque para ele é lindo! Lembrei de uma paciente de um colega dentista que insistia que fosse confeccionada um dentadura com aparelho ortodôntico porque ela achava lindo e tinha esse sonho: usar aparelho ortodôntico.
        Depois de muita conversa foi impossível convencer o senhor de 68 anos de que não daria (pelo menos eu não faria isso) de confeccionar uma dentadura com restaurações de amálgama,e cariada também(o que é mais doido ainda).
        Ele saiu sorrindo sem dentes na boca e sonhando com a possível dentadura cariada, e eu fiquei pensando o que mais ainda poderá aparecer na minha frente...


P.S.: O site animafest vende dentaduras cariadas (caso alguém tenha ficado interessado em usar uma) a R$ 2,50 a unidade. Pena que nunca mais vi essse senhor,ele sumiu mesmo.
   















O caso das glândulas respiratórias

Uma senhora,a última (im)paciente,conversava sem parar,e antes mesmo de sentar na cadeira odntológica foi advertindo:
-Olha só doutor,cuidado com minhas glândulas respiratórias? -Glândulas respiratórias??!!!-perguntei.
-Sim,sou anti-alérgica(esse não é o primeiro paciente que se autodenomina anti-alérgico),e minhas glândulas respiratórias não são boas não...
Feita a anamnese,e não sendo constatado nada de anormal com  a paciente perguntei:
-E a senhora tem problemas respiratórios?
-Nào,não!!!
- E como surgiu esse problema nas glândulas respiratórias?Não seriam glândulas salivares?(Pensei em xerostomia).
-Não ,não!!! É glândula respiratória mesmo doutor!Tipo assim,eu já tive um problema de pele,minha pele descamava igual escama de peixe,e daí o médico falou que eu tinha um problema nas glândulas respiratórias...
-Ah... Na pele então o problema..
.-Sim,sim...
Mas nada a impediu de abrir a boca e ser feito o procedimento.Ela realmente deve ter confundido,ou não lembrava do nome da glândula específica da pele(tentei ainda contornar para sudorípara),mas a senhora insistia em respiratória.Fazer o quê ,hein? 
E ela saiu com suas glândulas respiratórias sob a pele que descamava feito escama de peixe...

O cavaco

Depois que esse paciente,um senhor de 56 anos chegou ao consultório odontológico,passei o dia inteiro pensando em samba de mesa.Mas por quê? Bem,vamos ao caso:

Mesmo antes de entrar,ele já foi logo falando,(quase gritando como se eu fosse surdo):
-O senhor,doutor,tira cavaco?
-Cavaco de cavaquinho senhor?-perguntei brincando.
-Nãooooo!!! De cavacão mermo ora!!-respondeu ele assustado.
O paciente deitou na cadeira odontológica,e foi feito o exame bucal.Mas ele não parava de falar,disparava segundo a segundo uma pérola.
-Já viu o cavaco???
-Já sim!!! –respondia.
-Dá pra distrair o cavaco ou não dá?
-Dá sim senhor,pode deixar comigo que se depender de mim esse cavaco sai da sua boca hoje e vai fazer a festa noutro lugar!!
-Cuma???-perguntou ele sem entender nada do que falei.
Então,o que ele queria mesmo era somente extrair,ops distrair,a raiz residual que o incomodava a tempos.E depois de terminado,ele disse:
-Eita,cadê o  o cavacão doutor? Distraiu o danado mermo??
-Sim,sim! Não se preocupe!-respondi.
De acordo com o Aurélio,a palavra cavaco significa lasca de madeira,bate-papo,,e contrariedade passageira.Também pode ser um instrumento musical de cordas,com caixa de tambor e braço longo e estreito que pode também ser chamado de banjo.Mas o grande dicionário popular- cultural –sociológico- odontológico vive e sobrevive da vida,do trabalho,da cultura,do saber sem etnocentrismos de nosso povo brasileiro.E aquele senhor saiu do consultório rindo,e ficou na minha mente  o samba Maneiras de Zeca Pagodinho com o Rappa: Se eu quiser fumar eu fumo,
se eu quiser beber eu bebo
Eu pago tudo que eu consumo
com o suor do meu emprego
Confusão eu não arrumo,
mas também não peço arrego
Eu um dia me aprumo,
pois tenho fé no meu apego...


E o cavaco se foi e essa música colou por horas na minha cabeça!

Feliz dente novo!!


        Quando aquela senhora de 70 anos chegou ao consultório odontológico, era uma manhã chuvosa,fria e tranquila. Calma e serena, ela foi logo relatando que não era ela a paciente,e sim seu filho,o 'nenem',que precisava de orientações.
    Bem, pensei que ''nenem'' se tratasse do neto ou bisneto dela. Mas não, quando abriu-se a porta do consultório e entrou aquele senhor de mais ou menos 40 anos de idade, não tive dúvidas, o ''nenem'' era mesmo o filho mais novo dela,ou seja,o senhor de 40 anos.
     E ela não dava espaço para ''nenem'' falar. E disse que eu desse uma olhadinha na boca dele,pois ao tomar banho no rio,a dentadura caiu na água e perdeu-se,sumiu na correnteza.E agora ''nenem'' tinha somente cinco dentes inferiores cariados.E ela queria que imediatamente eu distraísse os 5 dentes restantes, coitados, culpados,vilões da história.
     Daí em diante foi uma epopéia tentar mostrar para a senhora e para o ''nenem'' que os 5 dentes cariados poderiam ser tratados e ficarem na boca dele.Muita saliva gasta,e alguns minutos depois ela olha pra mim e diz: ''Tudo bem doutorzinho,pois arremedie esse danado desse dente''.
     Depois de restaurado um dos dentes,ela sentiu-se feliz,e ''nenem'' idem.E prometeu retornar para tratar os 4 restantes,e claro,confeccionar uma prótese total para ''nenem''.
         Ela sorriu,olhou para o filho e disse: "Ficou bom mesmo...''.
   Gostaria de desejar um 2010 repleto de muita paz e realizações para todos que frequentam meu blog e curtem ler meus casos.

      Que muitos outros casos,causas e histórias ainda permeiem por mais 365 dias vindouros.
       Que muitos pacientes, com seus dramas,alegrias e   anseios possam povoar meu imaginário.Sem eles isso não seria possível...


                      abraços

                


                 





             

      

Férias,Jeri, Transplantes de gengivas e garçonetes


     Muitas histórias ainda podem surgir mesmo quando você,dentista,está longe do consultório odontológico. As cruciais consultas em bares e restaurantes,lojas etc. Nunca consegui escapar de tais fatos,acho até que como ímã sofro de pressão por atração a tais fatos,ous simplesmente somos predestinados mesmo,e ponto final.
     Dias de folga e resolvi voltar aonde tudo começou... O Paraíso,conforme relatei no post de mesmo nome. E o paraíso para mim,por esses dias,e por muitos em alguns anos atrás ousou atender pelo nome de Jericoacoara. Foi quando larguei a vida urbana e fui trabalhar numa Ong que atendia aos nativos da vila e paradisíaca praia. Mas essa é outra história,e se você ficou interessado clique no link anterior.
     Pelas areias de Jeri,como carinhosamente ela é chamada,muitos ainda me reconheceram como dentista,e isso ressoou como uma batida no meu peito assinalando que algo poderia surgir dali. E surgiram: reencontros com velhos pacientes,velhos lugares, grandes amigos,e claro, umas olhadinhas básicas nesse ou naquele dente que incomodava. Mas nada que me roube a paciência diante de tão bela natureza... Até cair a noite,e na mesa de um bar com ares africanos uma garçonete resolveu me levar a questionar se seria melhor ela colocar uma ponte ou um 'transplante de gengiva',e confesso que a resposta nem saiu e somente a dúvida do por quê as garçonetes me perseguem(não sou alcólatra,juro!).E depois de várias idas e vindas ela riu porque não sabia como seria feito o 'transplante da gengiva dela',se poderia colar a gengiva do namorado dela na boca dela...
   Tive que,mais uma vez,como a alguns anos atrás,deixar Jeri...
   Por esses dias irá acontecer na capital cearense o ECATESPO(Encontro Cearense de Administradores e Técnicos do Serviço Público Odontológico), e dois projetos de minha autoria foram escolhidos para serem apresentados,um  sobre Tratamento Restaurador Atraumático e outro sobre Multiplicadores em Saúde Bucal.Se você estiver em Fortaleza e quiser assitir as apresentações,clique no link anterior com o site do evento.
   Abraços

   



    

A Xerox do Dente



      Meses já se passaram depois que um jovem chegou ao           consultório odontológico querendo tirar ,literalmente,uma “xerox da cara dele”,como ele próprio me relatou no post intitulado A XEROX. 
Então, hoje, pela segunda vez, um outro paciente de 26 anos também usou xerox para se referir à radiografia. Diferente do primeiro, este já trazia a xerox que foi “batida”, segundo ele, por outro dentista.
       “Olha só doutor, o senhor tem que dá uma olhadinha na xerox que trouxe, que foi batida por outro doutor,antes de mexer no meu dente...”. “Olhar a xerox amigo?!? Que xerox?”. Foi aí que o outro paciente caiu na minha lembrança, e logo falei: “Radiografia, você quer dizer ?”, e ele respondeu: “Isso mesmo doutor!!! Radiocafria!!!”.
       Ele retirou a radiocafria,ops,radiografia do bolso e me entregou. E começou a falar que não entendia porque dentista tirava tanta xerox de dente,pra que serviria tanto aquilo... E conversamos sobre coisas que não podem ser vistas a olho nú,e que se escondem e que precisam ser desvendadas.Lembrei do blog Te Vejo por Dentro da  Kellen,e da importância de tanta xerox de dente no mundo. Sem elas tudo ficaria  muito mais complicado.
       E o paciente esboçou um sorriso e soltou : “É bom bater essas radiocafrias porque não doeu nadinha... gostei muito,se precisar pode mandar eu ir lá de novo doutor!!!”.
       Bem,não foi necessário,mas ele até entendeu que por debaixo de tudo que pode ser visto ainda existe muito mais a ser desvendado...

De pernas pro ar


   Quando aquele senhor entrou no consultório odontológico já era final de mais um dia de atendimento, de mais uma semana. 
   Nos cumprimentamos, virei-me para calçar o par de luvas e voltei minha atenção para ele. E foi aí que deparei-me com uma cena inusitada. O paciente estava deitado na cadeira odontológica com os pés em cima do encosto que deveria estar colocada a cabeça dele,ou seja,literalmente de pernas pro ar.
   Falei: "Senhor, desculpa, mas não conseguirei alcançar sua boca dessa forma...". E examinar os dedões dos pés dele estava fora de cogitação. E todos aqueles dedões voltados para meu rosto...
   Ele atrapalhou-se mais ainda, e uma sucessão de palavras desconexas foram soltas. E muitas,muitas desculpas aceitas e entendidas devidamente...
   Ele tinha 65 anos, era sua primeira visita ao consultório odontológico, até aí tudo bem.Mas acreditar que naquela posição eu conseguiria alcançar a boca dele, daí é uma outra história. Nem com todo o alongamento possível eu conseguiria tanta elasticidade. E começamos a rir, eu, ele e a auxiliar...
   E como hoje é sexta, esse último paciente encerrou a semana com risos,muitos risos. E como é bom rir...

 

O caso da maconha


   A alguns anos atrás um paciente de aproximadamente 30 anos chegou para aquela que seria sua última sessão no consultório odontológico.
   Durante todas as outras consultas ele sempre demonstrou demasiada impaciência alavancada pelo temor de sentar na cadeira odontológica.Numa vez ele chegou completamente embriagado alegando ter tomado uma única dose para a coragem "crescer", como ele mesmo enfatizou.
   Mas naquele último dia, aonde tudo parecia passar tão rápido e tranquilamente, ele chegou portando uma pequena sacola numa mão e na outra um pacote branco,pequeno e que foi colocado sobre a mesa a pedido dele.
  Terminado o atendimento ele saiu apressado carregando a sacola,mas horas depois a auxiliar notou a presença do pequeno embrulho branco. Curiosa ao extremo e alegando não saber do que se tratava ela abriu o pacote mal embrulhado e gritou: "Vixi doutor, tem é mato aqui!!!". Realmente um odor bem diferente invadiu o consultório...
   Fechamos o pacote,colocamos dentro de uma pequena caixa e continuamos o dia. Mas uma dúvida nos perseguia: "O que vamos fazer com isso,hein?!?", repetia a auxiliar inúmeras vezes.

   Final do dia, o pacotinho quase indo para o lixo, e para alívio geral no consultório o paciente retorna. Preocupado,foi logo falando: "Doutor, acho que esqueci um pacote com os remédios da minha mãe aqui".
   O pacote retornou para o seu dono,mas mal sabia ele que a curiosidade da auxiliar nos fez realmente saber que remédio a mãe dele fazia uso naquele momento.
   E ele saiu para nunca mais voltar...