Sobre dores e desafios:

 Algumas histórias que chegam ao consultório não cabem em uma ficha clínica.




O mundo pode parecer simples.

Às vezes, fácil.

Colorido.

Mas nem sempre foi assim para todos.

Ao longo dos anos de consultório, conheci pessoas que carregavam em seus cotidianos tons muito diferentes. Algumas pareciam viver em um mundo quase sem cores, pintado de cinza. Outras, apesar das dificuldades, ainda encontravam alguma maneira de acrescentar amarelo, vermelho, azul ou qualquer outra cor àquilo que, por algum tempo, havia parecido apenas preto e branco.

Talvez seja uma das coisas mais curiosas da profissão: você imagina que está ali para cuidar de dentes e, de repente, alguém coloca diante de você uma história inteira.

E quando os pacientes começam a falar, muitas vezes descarregam ali, naquele pequeno espaço de tempo, dores que talvez não tenham encontrado outro lugar para serem ditas.

Cada história que escuto costuma me fazer pensar em alguma coisa.

Em como ainda tenho muito a percorrer.

Em como meus próprios problemas, que às vezes parecem enormes, podem ser pequenos diante das batalhas que outras pessoas enfrentam todos os dias.

E em como somos rápidos para reclamar daquilo que temos, sem imaginar o peso que alguém sentado ao nosso lado pode estar carregando.

Quando a paciência chega ao limite

Antônia tinha pouco mais de trinta anos.

Era mãe solteira de três filhos. Um deles tinha deficiência física.

Naquele dia, alguma coisa aconteceu.

Não havia, aparentemente, um grande motivo para que ela perdesse a paciência naquele exato momento, diante da auxiliar de saúde bucal.

Mas perdeu.

O ambiente ficou em silêncio.

Ninguém sabia muito bem o que dizer.

E talvez aquele silêncio tenha sido necessário.

Às vezes, quando alguém chega ao limite, não precisa imediatamente de uma explicação.

Precisa de espaço.

De alguns minutos.

De alguém que não transforme aquele momento em julgamento.

Foi assim que deixamos o silêncio ocupar o ambiente.

E, aos poucos, aquele silêncio pareceu abrir uma pequena fresta.

Antônia começou a colocar para fora alguns dos fantasmas que carregava.

Não todos.

Talvez nem fosse possível.

Mas alguns.

O suficiente para que pudéssemos compreender que aquela explosão não tinha começado naquele consultório.

Havia muito mais coisa acontecendo por trás dela.

Algumas pessoas desabafam onde encontram escuta

É curioso como algumas pessoas conseguem falar de suas maiores dores diante de completos desconhecidos.

Talvez justamente porque somos desconhecidos.

Não existe a história anterior.

Não existe a obrigação de parecer forte.

Não existe a necessidade de preservar uma imagem construída durante anos.

Existe apenas aquele momento.

Aquela cadeira.

Aquela sala.

E alguém disposto a ouvir.

Depois de alguns minutos, Antônia começou a chorar.

O choro de quem havia segurado muita coisa por tempo demais.

E então veio o pedido de desculpas.

Como se ela precisasse se desculpar por ter chegado ao próprio limite.

Ao lado dela, a filha de oito anos também chorava.

E aquela cena dizia muito mais do que qualquer exame poderia dizer.

Não havia apenas uma paciente naquela sala.

Havia uma mãe cansada.

Havia uma criança absorvendo a angústia da mãe.

Havia uma família enfrentando desafios que eu provavelmente jamais conseguiria conhecer completamente.

E havia, naquele pequeno espaço de tempo, uma confiança que eu não tinha pedido.

Ela simplesmente aconteceu.

O que existe por trás de uma pessoa sentada na cadeira

Talvez essa seja uma das coisas que mais me marcaram durante os anos de consultório.

Nós vemos o paciente.

Mas raramente vemos tudo aquilo que chegou junto com ele.

A pessoa entra pela porta.

Senta-se na cadeira.

Abre a boca.

Responde às perguntas.

E nós examinamos seus dentes.

Mas o que veio junto?

Uma noite mal dormida?

Uma preocupação com os filhos?

Uma conta que não sabe como pagar?

Uma doença na família?

Uma separação?

Um medo?

Uma solidão?

Uma história que ninguém conhece?

Não existe radiografia capaz de mostrar tudo isso.

E talvez seja por isso que algumas consultas permaneçam na memória muito depois de esquecermos qual dente foi tratado.

 Dores que não aparecem no prontuário

Ao longo do tempo, comecei a perceber que muitos pacientes utilizavam aqueles poucos minutos de consulta para estabelecer uma relação que ia muito além do atendimento odontológico.

Não porque eu tivesse respostas para suas vidas.

Eu não tinha.

E ainda não tenho.

Mas talvez algumas pessoas não estejam procurando respostas.

Talvez estejam procurando apenas alguém que permaneça ali enquanto elas conseguem colocar em palavras aquilo que estava preso há muito tempo.

Às vezes, são poucas palavras.

Às vezes, são muitas.

Às vezes, é apenas um silêncio acompanhado de lágrimas.

Mas existe algo poderoso quando uma pessoa percebe que, naquele momento, não precisa fingir que está tudo bem.

Cada paciente carrega seus próprios desafios

Depois de tantas histórias, fica difícil não olhar para os próprios problemas de outra maneira.

Não significa diminuir aquilo que sentimos.

Cada dor é real para quem a sente.

Mas talvez conhecer outras dores nos ajude a desenvolver um pouco mais de perspectiva.

A entender que cada pessoa está travando batalhas que desconhecemos.

E que aquilo que parece uma reação exagerada para quem observa de fora pode ser apenas o último fio de uma corda que já estava sendo puxada há muito tempo.

Antônia não era apenas uma mulher que perdeu a paciência.

Era uma mãe.

Uma mulher tentando cuidar de três filhos.

Uma delas com necessidades especiais.

Uma pessoa que, naquele dia, simplesmente chegou ao limite.

Talvez todos nós tenhamos um limite.

A diferença é que algumas pessoas conseguem escondê-lo melhor.

Algumas palavras podem fazer diferença

Este foi apenas mais um dia entre tantos outros.

Mais uma história entre muitas que cruzaram meu caminho.

Algumas eu consegui guardar.

Outras foram desaparecendo com o tempo.

Mas certas cenas permanecem.

Talvez porque nos ensinem alguma coisa.

Talvez porque nos lembrem de que ninguém entra em um consultório deixando sua vida do lado de fora.

Cada paciente chega acompanhado de uma história.

E, por alguns minutos, essa história pode cruzar a nossa.

Não precisamos conhecer todos os detalhes.

Não precisamos solucionar todos os problemas.

Às vezes, algumas boas palavras já fazem diferença.

E, às vezes, até o silêncio pode ser uma forma de acolhimento.

 Sobre dores e desafios

Quando penso em todas essas histórias, fico imaginando quantas pessoas caminham diariamente carregando dores que ninguém percebe.

Pessoas que trabalham.

Que cuidam dos filhos.

Que sorriem.

Que conversam.

Que cumprem suas obrigações.

E que, por dentro, talvez estejam simplesmente tentando encontrar forças para chegar ao dia seguinte.

Por isso, talvez devêssemos ser um pouco mais cuidadosos com os julgamentos.

Um pouco mais generosos com as palavras.

Um pouco mais dispostos a ouvir.

Porque nunca sabemos o que existe por trás de uma reação, de um silêncio ou de uma lágrima.

E talvez essa seja uma das grandes lições que o consultório me ensinou:

cada pessoa que senta naquela cadeira está enfrentando desafios que não aparecem no exame.

A algumas delas, talvez possamos oferecer apenas alguns minutos de escuta.

A outras, uma palavra.

A outras, silêncio.

Mas talvez até isso seja importante.

Porque, no fim, todos nós carregamos nossas dores.

Todos nós enfrentamos nossos desafios.

E todos nós, em algum momento, precisamos encontrar alguém que nos lembre de que não precisamos atravessar tudo sozinhos.

Que os caminhos de cada um sejam, apesar das dores e dos desafios, entrelaçados por um pouco mais de paz, acolhimento e humanidade.

A criança que pediu desculpas por estar com medo

 



Há histórias que permanecem.

Não porque tenham terminado de maneira extraordinária.

Mas porque algumas cenas, depois de tantos anos, continuam voltando à nossa memória sem pedir licença.

Essa é uma delas.

Ela tinha apenas nove anos.

Entrou no consultório assustada.

Pequena demais para carregar tanto medo.

Lembro-me de que, antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela pediu desculpas.

Desculpas por estar com medo.

Desculpas pelas lágrimas que escorriam pelo rosto.

Desculpas por não conseguir se controlar.

Uma criança de nove anos pedindo desculpas porque estava chorando.

Aquilo me atravessou.

Porque, naquele momento, eu não enxergava apenas uma pequena paciente diante de mim.

Eu enxergava uma criança que, de alguma maneira, havia aprendido que até o próprio medo precisava ser justificado.

Talvez ela tivesse tido experiências anteriores ruins.

Talvez tivesse sentido dor.

Talvez tivesse conhecido profissionais que não souberam acolhê-la.

Talvez tivesse aprendido, em algum lugar da vida, que chorar incomodava.

Não sei.

E talvez nunca tenha sabido toda a história que aquela criança carregava.

Mas havia alguma coisa naquele pedido de desculpas que parecia maior do que o consultório.

"Desculpa por estar com medo."

Quantas vezes uma criança precisa sentir medo antes de aprender a pedir desculpas por senti-lo?

O medo que não começa na cadeira do dentista

Quem olha de fora pode imaginar que o medo estava relacionado apenas ao tratamento odontológico.

Mas nem todo medo começa onde ele aparece.

Às vezes, ele chega de muito antes.

Chega de outras dores.

De outras experiências.

De outras ausências.

De uma infância em que talvez tenha faltado aquilo que nenhuma criança deveria precisar pedir:

Segurança.

Acolhimento.

Proteção.

Tranquilidade.

Há crianças que chegam ao consultório com medo do dentista.

E há crianças que chegam carregando medos que não nasceram ali.

A cadeira odontológica apenas revela aquilo que já estava dentro delas.

Naquele dia, eu poderia ter enxergado apenas uma criança chorando.

Mas talvez fosse mais importante enxergar o motivo pelo qual ela achava que precisava pedir desculpas por chorar.

Algumas dores não cabem em uma ficha clínica

Na Odontologia, aprendemos a perguntar onde dói.

É uma pergunta importante.

Precisamos saber.

Mas existem dores para as quais não existe uma escala numérica.

Não aparecem na radiografia.

Não podem ser medidas com uma sonda.

Não deixam necessariamente uma lesão visível.

Uma criança pode chegar com dor de dente.

Mas o que sabemos sobre a dor que ela leva para casa?

O que sabemos sobre o medo que existe antes de dormir?

Sobre a fome?

Sobre a solidão?

Sobre a violência?

Sobre a ausência de alguém?

Sobre as noites em que uma criança deveria estar dormindo, mas está tentando entender o mundo?

Naquela idade, ela deveria estar preocupada com brincadeiras, desenhos, escola, amigos, aniversários.

Não deveria precisar aprender tão cedo a pedir desculpas por sentir medo.

 Quem será responsabilizado?

Essa pergunta me acompanhou por muito tempo.

Quem será responsabilizado pelas dores que uma criança não deveria conhecer?

Quem responde pela fome?

Pelo medo?

Pela solidão?

Pela negligência?

Pelas marcas que não aparecem na pele?

É fácil procurar um culpado quando existe uma ferida visível.

Mais difícil é responsabilizar aquilo que não conseguimos fotografar.

Porque algumas dores são silenciosas.

Algumas acontecem dentro de casa.

Outras acontecem na ausência dela.

Algumas são resultado de circunstâncias que nenhuma criança escolheu.

E, enquanto os adultos discutem responsabilidades, a criança continua crescendo.

Carregando aquilo que não deveria carregar.

Aprendendo, muitas vezes cedo demais, a esconder o medo.

A engolir o choro.

A não incomodar.

A pedir desculpas.

 Talvez ela só precisasse que alguém dissesse: não precisa pedir desculpas

Não me lembro se consegui encontrar as palavras perfeitas naquele momento.

Talvez elas nem existam.

Porque existem situações em que qualquer frase parece pequena diante do que está acontecendo.

Mas uma coisa eu aprendi naquele consultório:

uma criança assustada não precisa de bronca por estar assustada.

Precisa de tempo.

Precisa de alguém que não transforme suas lágrimas em um problema.

Precisa sentir que pode dizer "estou com medo" sem precisar acrescentar "desculpa".

Talvez cuidar também seja isso.

Criar, por alguns minutos, um lugar onde alguém possa baixar a guarda.

Onde o medo não seja motivo de vergonha.

Onde chorar não seja uma falha.

Onde uma criança possa simplesmente ser criança.

 O que ficou daquela consulta

Anos depois, muitas histórias do consultório se perderam nos detalhes.

Esqueci nomes.

Esqueci datas.

Esqueci procedimentos.

Mas algumas cenas permanecem intactas.

Aquela menina é uma delas.

Talvez porque, naquele dia, eu tenha percebido que o trabalho de um dentista pode começar muito antes de tocar em um dente.

Pode começar quando uma criança entra pela porta.

Quando ela olha para você tentando descobrir se está segura.

Quando as lágrimas aparecem.

Quando ela pede desculpas.

E talvez, naquele instante, o mais importante não seja dizer:

"Não precisa ter medo."

Porque, para quem sente medo, essa frase nem sempre resolve.

Talvez seja melhor dizer:

"Eu sei que você está com medo. E está tudo bem. Nós vamos devagar."

Há uma diferença enorme entre mandar alguém deixar de sentir medo e oferecer companhia enquanto o medo passa.

 Algumas crianças carregam histórias que não conseguimos enxergar

Hoje, quando penso naquela menina, não me lembro apenas da paciente.

Lembro-me da criança.

E penso em quantas outras entram todos os dias em consultórios, escolas, hospitais e salas de aula carregando histórias que ninguém conhece.

Crianças que aprenderam a sorrir.

Crianças que aprenderam a ficar quietas.

Crianças que aprenderam a pedir desculpas.

Crianças que talvez tenham se acostumado com aquilo que jamais deveria ser normal.

Por isso, talvez devêssemos olhar um pouco mais demoradamente.

Antes de perguntar:

"O que ela tem?"

Talvez seja necessário perguntar:

"O que será que ela está vivendo?"

Porque existem sofrimentos que não aparecem no exame.

Existem traumas que não aparecem na boca.

E existem pedidos de socorro que chegam disfarçados de silêncio, medo ou lágrimas.

Aquela menina entrou no consultório pedindo desculpas por estar com medo.

Eu gostaria de acreditar que, por alguns minutos, ela descobriu que não precisava.

Que ali ela podia chorar.

Podia ter medo.

Podia ser pequena.

Podia simplesmente ser uma criança.

 Para saber mais

O Ministério da Saúde reúne orientações sobre cuidados com a saúde bucal das crianças, incluindo higiene, prevenção e acompanhamento odontológico.

Saúde Bucal na Infância - Ministério da Saúde

E talvez essa seja uma das coisas que mais ficaram comigo depois de tantos anos de consultório:

algumas crianças não precisam que o mundo lhes peça coragem.

Precisam apenas encontrar, de vez em quando, alguém que lhes ofereça segurança.

A cadeira do dentista também é um divã



Durante muitos anos, sentei-me diante de pessoas que chegavam ao consultório com uma queixa muito específica.

Dor de dente.

Uma restauração que havia caído.

Uma prótese que não estava mais confortável.

Um dente que precisava ser extraído.

Era para isso que eu estava ali.

Pelo menos, era o que eu imaginava.

Com o tempo, porém, comecei a perceber que algumas pessoas chegavam ao consultório odontológico trazendo muito mais do que uma dor na boca.

Às vezes, o dente era apenas a porta de entrada.

A pessoa sentava na cadeira, eu começava o exame e, enquanto procurava uma cárie, uma fratura ou qualquer outra coisa que justificasse aquela consulta, ela começava a falar.

E quando percebia, já estávamos muito longe dos dentes.

Falávamos da vida.

Do marido.

Dos filhos.

De uma separação.

De alguém que havia morrido.

De uma preocupação que ela não conseguia contar para ninguém.

De uma solidão que não aparecia em nenhuma radiografia.

Talvez por isso eu tenha começado a pensar que, de certa maneira, a cadeira do dentista também é um divã.

Não porque nós, dentistas, sejamos psicólogos.

Não somos.

E não devemos ocupar um lugar que não nos pertence.

Mas existe alguma coisa curiosa naquela cadeira.

A pessoa se senta.

Reclina.

Fica ali, por alguns minutos, praticamente sem ter para onde ir.

E, enquanto eu examinava sua boca, muitas vezes ela acabava me entregando também um pedaço da sua história.

Uma senhora que foi ao dentista para conversar

Lembro-me especialmente de uma senhora, por volta dos 75 anos.

Ela chegou à Unidade Básica de Saúde (UBS) para uma consulta odontológica.

Fiz o exame clínico normalmente, procurando alguma alteração, alguma queixa que precisasse ser tratada.

Mas não encontrei nada significativo.

Estava tudo bem.

Ou, pelo menos, tudo parecia bem quando eu olhava apenas para a boca.

Depois do exame, ela acabou me contando, com uma naturalidade que me marcou, que talvez tivesse ido até ali por outro motivo.

Ela realmente queria conversar.

Morava sozinha.

Os filhos estavam longe.

A rotina era silenciosa.

E ir até a unidade de saúde era, de certa maneira, uma forma de sair de casa, encontrar pessoas, conversar e deixar a vida um pouco mais alegre.

Aquilo ficou comigo.

Porque eu havia entrado naquela sala pensando que tinha diante de mim uma paciente que precisava de um exame odontológico.

Mas havia uma mulher ali que também precisava de companhia.

E não havia absolutamente nada de errado com isso.

Talvez, naquele dia, o que ela precisava não pudesse ser encontrado com espelho, sonda ou radiografia.

Nem toda dor aparece no exame

Na Odontologia, aprendemos a procurar sinais.

Observamos a gengiva.

Examinamos os dentes.

Procuramos lesões.

Perguntamos onde dói.

Tentamos descobrir a origem do problema.

Mas a vida não funciona como uma boca.

Existem dores que não aparecem no exame.

Existem sofrimentos que não deixam marcas visíveis.

Uma pessoa pode sorrir enquanto conversa e, ainda assim, estar atravessando um período muito difícil.

Pode estar trabalhando, cuidando dos filhos, indo ao supermercado, pagando contas, respondendo mensagens e cumprindo todas as obrigações do dia enquanto carrega dentro de si uma tristeza que ninguém percebe.

No consultório, aprendi que nem sempre a pessoa que diz “não tenho nada” realmente quer dizer que não tem nada.

Às vezes ela quer dizer:

“Eu não sei como explicar o que está acontecendo comigo.”

O consultório como lugar de escuta

Nunca pensei que uma parte tão importante do meu trabalho pudesse acontecer justamente nos momentos em que eu não estava falando de dentes.

Uma consulta pode começar com:

“Doutor, esse dente está doendo.”

E terminar com:

“Doutor, sabe o que está acontecendo na minha vida?”

E então você percebe que aquela pessoa estava esperando uma oportunidade para falar.

Não cabia ao dentista resolver aquela vida.

Nem seria correto tentar fazer isso.

Mas talvez coubesse ouvir.

Ouvir sem transformar imediatamente tudo em conselho.

Ouvir sem julgar.

Ouvir sem dizer que “vai ficar tudo bem” quando você não tem como saber.

Às vezes, simplesmente permanecer alguns minutos diante de alguém e prestar atenção no que ela está dizendo já é uma forma de respeito.

Algumas histórias ficaram comigo

Ao longo dos anos, aconteceram muitas situações assim.

Algumas eram engraçadas.

Outras, completamente inesperadas.

Algumas eu contei aqui no Amilton Live.

Como aquela paciente que chegou ao consultório depois de uma situação tão inusitada que acabou virando a crônica “Engoli meu dente, e agora?!”.

Naquele caso, a história começou com um dente de dentadura e terminou em uma situação que, até hoje, é difícil esquecer.

Mas havia também histórias que não tinham nada de engraçado.

Histórias de pessoas envelhecendo sozinhas.

De filhos que moravam longe.

De perdas.

De medo, como na crônica “Pecados...”.

De pessoas que pareciam estar bem até começarem a falar.

E talvez seja justamente por isso que algumas consultas permanecem na nossa memória por muito mais tempo do que outras.

Não necessariamente porque havia alguma coisa extraordinária acontecendo com os dentes.

Mas porque havia uma pessoa extraordinária tentando continuar vivendo apesar das coisas que carregava.

Setembro Amarelo e aquilo que não aparece

Estamos novamente em setembro.

O mês do Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção do suicídio e saúde mental.

Mas, para mim, depois de tantos anos ouvindo pacientes, existe uma pergunta que vem antes de qualquer campanha:

Será que estamos realmente olhando para as pessoas que estão ao nosso redor?

Não apenas olhando.

Percebendo.

Uma pessoa que vive sozinha.

Um amigo que deixou de aparecer.

Alguém que mudou repentinamente seu comportamento.

Uma pessoa que sempre dizia estar bem e que agora parece diferente.

Nem toda mudança significa que existe um problema grave.

Nem toda tristeza significa depressão.

Nem toda solidão significa risco de suicídio.

Mas isso não significa que devemos ignorar os sinais quando alguém demonstra sofrimento.

E também não significa que precisamos transformar cada conversa em uma tentativa de diagnosticar o outro.

Talvez o primeiro passo seja muito mais simples.

Perguntar:

“Como você está?”

E, principalmente, estar disposto a ouvir a resposta.

O dentista não é psicólogo. Mas é gente.

Essa talvez seja uma das coisas que mais aprendi durante os anos de consultório.

Antes de ser paciente, aquela pessoa é uma pessoa.

Antes de ser uma boca para examinar, ela tem uma história.

Antes de ser um prontuário, ela tem medos, desejos, perdas, lembranças e esperanças.

O dentista não precisa ser psicólogo para perceber isso.

E também não deve tentar substituir um profissional de saúde mental.

Quando existe sofrimento psicológico importante, é fundamental buscar ajuda especializada.

Mas podemos ser humanos.

Podemos ouvir.

Podemos acolher.

Podemos perceber quando alguma coisa parece não estar bem e, quando necessário, incentivar a pessoa a procurar ajuda.

Talvez seja essa a diferença entre simplesmente atender alguém e realmente enxergar quem está sentado diante de nós.

E podemos continuar derrubando paradigmas que ainda associam a Odontologia a uma prática individualista e excludente, na qual pacientes acabam sendo tratados como números.

O que aquela senhora me ensinou

Volto àquela senhora de quem falei no começo.

Ela não tinha uma grande queixa odontológica.

Não havia uma cárie profunda esperando por tratamento.

Não havia uma dor que exigisse um procedimento.

Ela simplesmente estava sozinha.

E naquele dia, sair de casa, ir até a unidade de saúde e conversar com alguém fazia diferença.

Talvez ela tenha saído dali sem nenhum tratamento odontológico.

Mas eu gosto de pensar que aquela consulta não foi inútil.

Porque nem tudo que importa em uma consulta aparece no prontuário.

Algumas coisas ficam apenas na memória de quem estava ali.

Talvez algumas pessoas só precisem que alguém pare para ouvir

Depois de tantos anos, percebi que a cadeira odontológica pode ser um lugar curioso.

Ali, algumas pessoas abrem a boca para que examinemos os dentes.

E, inesperadamente, acabam abrindo também uma janela para a própria vida.

Nós não conseguimos tratar todas as dores.

Não temos respostas para todos os problemas.

Não podemos substituir psicólogos, psiquiatras, médicos ou outros profissionais quando eles são necessários.

Mas podemos prestar atenção.

Podemos perguntar.

Podemos escutar.

E podemos lembrar que, por trás de cada paciente que entra pela porta do consultório, existe alguém que está tentando dar conta da própria vida.

Talvez seja por isso que, depois de tantos anos, algumas histórias continuam comigo.

Porque há coisas que não aparecem no exame, mas que também precisam ser cuidadas.

E talvez essa seja uma das maiores lições que a cadeira do dentista me ensinou.

Às vezes, antes de cuidar de um dente, precisamos simplesmente enxergar a pessoa que está por trás dele.

 

Café e Livros: O Ritual do Café Orfeu Orgânico no De Boca Aberta



Xícara de café com Drip Coffee Orfeu Orgânico ao lado de livro aberto sobre mesa de madeira rústica em ambiente aconchegante.

Existem rituais que não aceitam pressa. Para um cronista, sentar-se diante de uma página em branco, ou mergulhar nas páginas de um livro alheio, exige um preparo da alma. E, no meu caso, esse preparo tem um aroma muito específico: o café recém-passado.

Sempre acreditei que o café e o livro são companheiros de destino. Ambos exigem pausa, ambos despertam os sentidos e, se bem escolhidos, deixam um retrogosto de saudade quando terminam. Recentemente, mudei o tom do meu ritual no De Boca Aberta & Outras Histórias. Descobri que a qualidade do que bebemos influencia a clareza do que lemos.

Por que o Café Orfeu Orgânico mudou minha rotina de leitura?

Hoje, enquanto as histórias ganham vida, meu fiel escudeiro tem sido o Café Orfeu Orgânico. O que me cativou não foi apenas o sabor equilibrado e a consciência de ser um grão cultivado sem pressa, mas a praticidade que encontrei para os meus momentos de criação literária.

Para quem busca um café gourmet para ler, a pureza do grão faz toda a diferença. Ele traz uma nota de sofisticação que combina com o papel e com o tempo lento das boas memórias.

A praticidade do Drip Coffee para quem ama crônicas

Para quem, como eu, se perde no enredo e esquece do mundo, ter um café de altíssima qualidade filtrado diretamente na xícara, sem precisar sair do canto de leitura, é um luxo necessário. O sistema Drip Coffee da Orfeu é o "café de bolso" que entrega a alma de uma cafeteria premiada no silêncio do meu escritório.

Escritor Amilton Costa lendo livro no sofá com xícara de Café Orfeu Orgânico Drip Coffee.


Dica do Amilton: Para os amigos que sempre perguntam como mantenho o foco (e o paladar apurado), deixo aqui o caminho para o meu segredo orgânico. Costumo garantir a entrega de  meus sachês com a rapidez que minha ansiedade literária exige: Confira o Café Orfeu Orgânico  aqui.

Conclusão: A Próxima Página

Com a xícara fumegante ao lado, as palavras parecem pesar menos. No próximo encontro aqui no blog, quero lhes contar como esse mesmo café tem sido a trilha sonora para as minhas caixas da TAG Curadoria e Inéditos, mas isso é conversa para outra xícara.

E você? Qual o aroma que embala suas leituras? O café forte para despertar a trama ou um chá suave para ninar a poesia? Deixe seu comentário abaixo!

— Amilton A Costa