A cadeira do dentista também é um divã



Durante muitos anos, sentei-me diante de pessoas que chegavam ao consultório com uma queixa muito específica.

Dor de dente.

Uma restauração que havia caído.

Uma prótese que não estava mais confortável.

Um dente que precisava ser extraído.

Era para isso que eu estava ali.

Pelo menos, era o que eu imaginava.

Com o tempo, porém, comecei a perceber que algumas pessoas chegavam ao consultório odontológico trazendo muito mais do que uma dor na boca.

Às vezes, o dente era apenas a porta de entrada.

A pessoa sentava na cadeira, eu começava o exame e, enquanto procurava uma cárie, uma fratura ou qualquer outra coisa que justificasse aquela consulta, ela começava a falar.

E quando percebia, já estávamos muito longe dos dentes.

Falávamos da vida.

Do marido.

Dos filhos.

De uma separação.

De alguém que havia morrido.

De uma preocupação que ela não conseguia contar para ninguém.

De uma solidão que não aparecia em nenhuma radiografia.

Talvez por isso eu tenha começado a pensar que, de certa maneira, a cadeira do dentista também é um divã.

Não porque nós, dentistas, sejamos psicólogos.

Não somos.

E não devemos ocupar um lugar que não nos pertence.

Mas existe alguma coisa curiosa naquela cadeira.

A pessoa se senta.

Reclina.

Fica ali, por alguns minutos, praticamente sem ter para onde ir.

E, enquanto eu examinava sua boca, muitas vezes ela acabava me entregando também um pedaço da sua história.

Uma senhora que foi ao dentista para conversar

Lembro-me especialmente de uma senhora, por volta dos 75 anos.

Ela chegou à Unidade Básica de Saúde (UBS) para uma consulta odontológica.

Fiz o exame clínico normalmente, procurando alguma alteração, alguma queixa que precisasse ser tratada.

Mas não encontrei nada significativo.

Estava tudo bem.

Ou, pelo menos, tudo parecia bem quando eu olhava apenas para a boca.

Depois do exame, ela acabou me contando, com uma naturalidade que me marcou, que talvez tivesse ido até ali por outro motivo.

Ela realmente queria conversar.

Morava sozinha.

Os filhos estavam longe.

A rotina era silenciosa.

E ir até a unidade de saúde era, de certa maneira, uma forma de sair de casa, encontrar pessoas, conversar e deixar a vida um pouco mais alegre.

Aquilo ficou comigo.

Porque eu havia entrado naquela sala pensando que tinha diante de mim uma paciente que precisava de um exame odontológico.

Mas havia uma mulher ali que também precisava de companhia.

E não havia absolutamente nada de errado com isso.

Talvez, naquele dia, o que ela precisava não pudesse ser encontrado com espelho, sonda ou radiografia.

Nem toda dor aparece no exame

Na Odontologia, aprendemos a procurar sinais.

Observamos a gengiva.

Examinamos os dentes.

Procuramos lesões.

Perguntamos onde dói.

Tentamos descobrir a origem do problema.

Mas a vida não funciona como uma boca.

Existem dores que não aparecem no exame.

Existem sofrimentos que não deixam marcas visíveis.

Uma pessoa pode sorrir enquanto conversa e, ainda assim, estar atravessando um período muito difícil.

Pode estar trabalhando, cuidando dos filhos, indo ao supermercado, pagando contas, respondendo mensagens e cumprindo todas as obrigações do dia enquanto carrega dentro de si uma tristeza que ninguém percebe.

No consultório, aprendi que nem sempre a pessoa que diz “não tenho nada” realmente quer dizer que não tem nada.

Às vezes ela quer dizer:

“Eu não sei como explicar o que está acontecendo comigo.”

O consultório como lugar de escuta

Nunca pensei que uma parte tão importante do meu trabalho pudesse acontecer justamente nos momentos em que eu não estava falando de dentes.

Uma consulta pode começar com:

“Doutor, esse dente está doendo.”

E terminar com:

“Doutor, sabe o que está acontecendo na minha vida?”

E então você percebe que aquela pessoa estava esperando uma oportunidade para falar.

Não cabia ao dentista resolver aquela vida.

Nem seria correto tentar fazer isso.

Mas talvez coubesse ouvir.

Ouvir sem transformar imediatamente tudo em conselho.

Ouvir sem julgar.

Ouvir sem dizer que “vai ficar tudo bem” quando você não tem como saber.

Às vezes, simplesmente permanecer alguns minutos diante de alguém e prestar atenção no que ela está dizendo já é uma forma de respeito.

Algumas histórias ficaram comigo

Ao longo dos anos, aconteceram muitas situações assim.

Algumas eram engraçadas.

Outras, completamente inesperadas.

Algumas eu contei aqui no Amilton Live.

Como aquela paciente que chegou ao consultório depois de uma situação tão inusitada que acabou virando a crônica “Engoli meu dente, e agora?!”.

Naquele caso, a história começou com um dente de dentadura e terminou em uma situação que, até hoje, é difícil esquecer.

Mas havia também histórias que não tinham nada de engraçado.

Histórias de pessoas envelhecendo sozinhas.

De filhos que moravam longe.

De perdas.

De medo, como na crônica “Pecados...”.

De pessoas que pareciam estar bem até começarem a falar.

E talvez seja justamente por isso que algumas consultas permanecem na nossa memória por muito mais tempo do que outras.

Não necessariamente porque havia alguma coisa extraordinária acontecendo com os dentes.

Mas porque havia uma pessoa extraordinária tentando continuar vivendo apesar das coisas que carregava.

Setembro Amarelo e aquilo que não aparece

Estamos novamente em setembro.

O mês do Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção do suicídio e saúde mental.

Mas, para mim, depois de tantos anos ouvindo pacientes, existe uma pergunta que vem antes de qualquer campanha:

Será que estamos realmente olhando para as pessoas que estão ao nosso redor?

Não apenas olhando.

Percebendo.

Uma pessoa que vive sozinha.

Um amigo que deixou de aparecer.

Alguém que mudou repentinamente seu comportamento.

Uma pessoa que sempre dizia estar bem e que agora parece diferente.

Nem toda mudança significa que existe um problema grave.

Nem toda tristeza significa depressão.

Nem toda solidão significa risco de suicídio.

Mas isso não significa que devemos ignorar os sinais quando alguém demonstra sofrimento.

E também não significa que precisamos transformar cada conversa em uma tentativa de diagnosticar o outro.

Talvez o primeiro passo seja muito mais simples.

Perguntar:

“Como você está?”

E, principalmente, estar disposto a ouvir a resposta.

O dentista não é psicólogo. Mas é gente.

Essa talvez seja uma das coisas que mais aprendi durante os anos de consultório.

Antes de ser paciente, aquela pessoa é uma pessoa.

Antes de ser uma boca para examinar, ela tem uma história.

Antes de ser um prontuário, ela tem medos, desejos, perdas, lembranças e esperanças.

O dentista não precisa ser psicólogo para perceber isso.

E também não deve tentar substituir um profissional de saúde mental.

Quando existe sofrimento psicológico importante, é fundamental buscar ajuda especializada.

Mas podemos ser humanos.

Podemos ouvir.

Podemos acolher.

Podemos perceber quando alguma coisa parece não estar bem e, quando necessário, incentivar a pessoa a procurar ajuda.

Talvez seja essa a diferença entre simplesmente atender alguém e realmente enxergar quem está sentado diante de nós.

E podemos continuar derrubando paradigmas que ainda associam a Odontologia a uma prática individualista e excludente, na qual pacientes acabam sendo tratados como números.

O que aquela senhora me ensinou

Volto àquela senhora de quem falei no começo.

Ela não tinha uma grande queixa odontológica.

Não havia uma cárie profunda esperando por tratamento.

Não havia uma dor que exigisse um procedimento.

Ela simplesmente estava sozinha.

E naquele dia, sair de casa, ir até a unidade de saúde e conversar com alguém fazia diferença.

Talvez ela tenha saído dali sem nenhum tratamento odontológico.

Mas eu gosto de pensar que aquela consulta não foi inútil.

Porque nem tudo que importa em uma consulta aparece no prontuário.

Algumas coisas ficam apenas na memória de quem estava ali.

Talvez algumas pessoas só precisem que alguém pare para ouvir

Depois de tantos anos, percebi que a cadeira odontológica pode ser um lugar curioso.

Ali, algumas pessoas abrem a boca para que examinemos os dentes.

E, inesperadamente, acabam abrindo também uma janela para a própria vida.

Nós não conseguimos tratar todas as dores.

Não temos respostas para todos os problemas.

Não podemos substituir psicólogos, psiquiatras, médicos ou outros profissionais quando eles são necessários.

Mas podemos prestar atenção.

Podemos perguntar.

Podemos escutar.

E podemos lembrar que, por trás de cada paciente que entra pela porta do consultório, existe alguém que está tentando dar conta da própria vida.

Talvez seja por isso que, depois de tantos anos, algumas histórias continuam comigo.

Porque há coisas que não aparecem no exame, mas que também precisam ser cuidadas.

E talvez essa seja uma das maiores lições que a cadeira do dentista me ensinou.

Às vezes, antes de cuidar de um dente, precisamos simplesmente enxergar a pessoa que está por trás dele.

 

Café e Livros: O Ritual do Café Orfeu Orgânico no De Boca Aberta



Xícara de café com Drip Coffee Orfeu Orgânico ao lado de livro aberto sobre mesa de madeira rústica em ambiente aconchegante.

Existem rituais que não aceitam pressa. Para um cronista, sentar-se diante de uma página em branco, ou mergulhar nas páginas de um livro alheio, exige um preparo da alma. E, no meu caso, esse preparo tem um aroma muito específico: o café recém-passado.

Sempre acreditei que o café e o livro são companheiros de destino. Ambos exigem pausa, ambos despertam os sentidos e, se bem escolhidos, deixam um retrogosto de saudade quando terminam. Recentemente, mudei o tom do meu ritual no De Boca Aberta & Outras Histórias. Descobri que a qualidade do que bebemos influencia a clareza do que lemos.

Por que o Café Orfeu Orgânico mudou minha rotina de leitura?

Hoje, enquanto as histórias ganham vida, meu fiel escudeiro tem sido o Café Orfeu Orgânico. O que me cativou não foi apenas o sabor equilibrado e a consciência de ser um grão cultivado sem pressa, mas a praticidade que encontrei para os meus momentos de criação literária.

Para quem busca um café gourmet para ler, a pureza do grão faz toda a diferença. Ele traz uma nota de sofisticação que combina com o papel e com o tempo lento das boas memórias.

A praticidade do Drip Coffee para quem ama crônicas

Para quem, como eu, se perde no enredo e esquece do mundo, ter um café de altíssima qualidade filtrado diretamente na xícara, sem precisar sair do canto de leitura, é um luxo necessário. O sistema Drip Coffee da Orfeu é o "café de bolso" que entrega a alma de uma cafeteria premiada no silêncio do meu escritório.

Escritor Amilton Costa lendo livro no sofá com xícara de Café Orfeu Orgânico Drip Coffee.


Dica do Amilton: Para os amigos que sempre perguntam como mantenho o foco (e o paladar apurado), deixo aqui o caminho para o meu segredo orgânico. Costumo garantir a entrega de  meus sachês com a rapidez que minha ansiedade literária exige: Confira o Café Orfeu Orgânico  aqui.

Conclusão: A Próxima Página

Com a xícara fumegante ao lado, as palavras parecem pesar menos. No próximo encontro aqui no blog, quero lhes contar como esse mesmo café tem sido a trilha sonora para as minhas caixas da TAG Curadoria e Inéditos, mas isso é conversa para outra xícara.

E você? Qual o aroma que embala suas leituras? O café forte para despertar a trama ou um chá suave para ninar a poesia? Deixe seu comentário abaixo!

— Amilton A Costa




 

Infinitos Fins: Como os encerramentos da vida nos preparam para o novo


O peso de colocar um ponto final

Todos nós já passamos por momentos em que o "fim" parecia absoluto. Seja o encerramento de um ciclo profissional, o término de um relacionamento ou a despedida de quem amamos. Mas, e se o fim não for um muro, mas sim uma porta?

Com base em experiências reais e nas reflexões acumuladas ao longo de anos - muitas das quais você já acompanhou por aqui e em outros posts que alcançaram milhares de leitores - , trago para você meu novo livro, "Infinitos Fins".

Capa do livro Infinitos Fins, escrito por Amilton Costa


Saúde Mental e a Arte de Desapegar 

Aceitar que as coisas terminam é um dos maiores exercícios de saúde emocional. Muitas vezes, o sofrimento não vem do fim em si, mas da nossa resistência em deixar ir. Escrever Infinitos Fins foi, para mim, uma forma de organizar essas dores e transformá-las em aprendizado.

  • Resiliência: A capacidade de se refazer.

  • Reflexão: O silêncio necessário após a tempestade.

  • Recomeço: A coragem de escrever o próximo capítulo.

Por que ler Infinitos Fins? 

Este livro não é apenas uma coletânea de encerramentos; é um guia para quem busca sentido no caos das transições. Se você sente que está estagnado em um "fim" que não termina, estas páginas foram escritas para você.

"O fim é apenas o infinito se apresentando de uma forma que ainda não aprendemos a ler."


Adquira o livro na Amazon

Você já pode mergulhar nesta jornada de autoconhecimento e reflexão. O livro está disponível em formato digital e físico:

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De Boca Aberta está de volta! 15 anos depois, as histórias ganham nova vida

Relançamento do livro "De Boca Aberta: Crônicas de Vidas na Cadeira Odontológica" — Edição Revisada e Ampliada 2026


Capa do livro De Boca Aberta: Crônicas de Vidas na Cadeira Odontológica, edição revisada e ampliada 2026, de Amilton Costa

 

Há 15 anos, publiquei meu primeiro livro: De Boca Aberta.

Eram crônicas sobre os encontros que eu tinha na cadeira odontológica, histórias de pacientes que me ensinaram que ouvir é tão importante quanto tratar. O livro nasceu pequeno, artesanal, quase tímido — mas carregava o coração de cada pessoa que cruzou meu caminho no SUS.

Hoje, tenho a alegria de anunciar: De Boca Aberta voltou. Revisado, ampliado e mais vivo do que nunca.

O que mudou?

Esta segunda edição não é apenas uma reimpressão. É um reencontro.

Revisitei cada crônica da primeira edição com o olhar de quem amadureceu. Ajustei palavras, refinei histórias, corrigi o que o tempo me ensinou a ver melhor. E fui além: adicionei crônicas inéditas — histórias que estavam guardadas em cadernos, em memórias, em fragmentos do blog que nunca tinham ganhado forma de livro.

Agora são 67 crônicas organizadas em 5 eixos temáticos:

  1. O "Divã" e o Imaginário Popular — O consultório como confessionário e as crenças que as pessoas carregam
  2. Retratos da Infância e Juventude — A pureza, os medos e a vulnerabilidade dos jovens
  3. As Sombras da Alma — Histórias densas sobre dor, exclusão e saúde mental
  4. Sonhos Inusitados e Excentricidades — O lado hilário e bizarro do consultório
  5. Transformações e Recomeços — Superação, esperança e a força de um novo sorriso

Por que agora?

Porque as histórias continuam surgindo.

Porque há 15 anos percebi que meu trabalho não era só sobre dentes — era sobre gente. E porque, neste tempo todo escrevendo no blog De Boca Aberta e Outras Histórias, descobri que essas narrativas ainda fazem sentido. Mais do que isso: elas são necessárias.

Num mundo que corre e que esquece de parar para ouvir, este livro é um convite. Um convite para desacelerar, para enxergar além da superfície, para perceber que cada pessoa tem uma história — e que todas elas merecem ser contadas.

Onde encontrar

De Boca Aberta: Crônicas de Vidas na Cadeira Odontológica está disponível agora na Amazon, em versão e-book (R$ 9,99) e impressa.

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Um agradecimento

A todos que leram, compartilharam e me incentivaram ao longo desses 15 anos: muito obrigado. Vocês mantiveram essas histórias vivas. Vocês são parte delas.

Que este livro encontre novos leitores, novos corações, novas conversas. E que continue fazendo o que sempre fez: nos lembrar de que, por trás de cada boca aberta, há uma vida inteira esperando para ser ouvida.

Nos vemos nas páginas. 

Amilton Costa

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