É Preciso Ter Calma:Uma Crônica Sobre Medo, Fé e Paciência

 

 

Consultório odontológico em uma manhã chuvosa, cenário da crônica É Preciso Ter Calma.


Tentar compreender as atitudes, os desejos, as dúvidas e o cotidiano das pessoas que passam por nossas vidas, sem ter a certeza de que voltaremos a encontrá-las, é um desafio constante. Essa é, muitas vezes, a realidade de um consultório odontológico público, onde cada paciente traz consigo uma história, um medo e uma maneira particular de enfrentar a dor.

O medo por trás da cadeira odontológica

Medo, tensão e dor se misturam em atitudes que podem ser interpretadas de diferentes formas. Em determinados momentos, o sofrimento se manifesta por meio de reações inesperadas. Aquela personalidade que, em outras circunstâncias, permanece escondida acaba emergindo, revelando nuances surpreendentes. Surgem, então, comportamentos que nos apresentam um ser humano diferente daquele que imaginávamos encontrar: ora agressivo, ora carente de carinho e afeto.

E parece que será sempre assim: diante da dor, nunca sabemos exatamente quem encontraremos do outro lado da cadeira odontológica.

Quando a fé invade o consultório

Era uma manhã chuvosa. O primeiro paciente do dia era uma criança de onze anos, acompanhada pela mãe, que se mostrava extremamente nervosa e impaciente. De certa forma, ela transmitia à criança o próprio medo e a própria insegurança. Num primeiro momento, cheguei a pedir que aguardasse na sala de espera, mas o menino insistiu em ter ao seu lado a presença protetora da mãe.

Iniciei o procedimento e, por alguns instantes, concentrei-me inteiramente no atendimento. Foi então que percebi que a senhora havia desaparecido do meu campo de visão. Logo depois, comecei a ouvir vozes sussurradas atrás de mim. Aos poucos, elas foram aumentando de intensidade, tornando-se cada vez mais audíveis.

Virei-me para descobrir o que estava acontecendo.

A mãe do pequeno paciente encontrava-se atrás da cadeira odontológica, com as mãos erguidas, entoando cânticos que se tornavam mais altos e intensos a cada instante. De olhos fechados, parecia completamente absorta naquele momento de oração.

Acredite: o consultório havia se transformado em um culto improvisado!

Diante daquela cena inesperada, pouco pude fazer além de manter a tranquilidade e permitir que a situação seguisse seu curso, desde que o atendimento pudesse continuar com segurança. Curiosamente, o menino parecia mais calmo, e todo o procedimento transcorreu sem maiores dificuldades.

A calma que chega de onde menos esperamos

Ao final, a senhora ainda pronunciou algumas orações em voz alta e agradeceu a Deus pelo procedimento concluído. Mãe e filho deixaram o consultório felizes e aliviados.

Eu também me senti mais tranquilo. Agradeci àquela mãe e, confesso, cheguei a pensar na possibilidade de recorrer à mesma estratégia em outras situações de extrema tensão. Quem sabe a fé, para algumas pessoas, não pudesse ajudar a recompor a serenidade de um ambiente tão frequentemente marcado pela dor, pelo medo e pela ansiedade?

É claro que cada paciente encontra sua própria maneira de enfrentar os momentos difíceis. Naquele dia, porém, aprendi que nem sempre a tranquilidade chega pelos caminhos que imaginamos. Às vezes, ela vem acompanhada de cânticos, mãos erguidas e uma fé capaz de transformar, ainda que por alguns instantes, a atmosfera de um consultório odontológico.

No fim das contas, entre o medo de uma criança, a fé de uma mãe e o espanto de um dentista, ficou uma lição simples, dessas que a vida ensina sem avisar:

Às vezes, é preciso ter calma. Muita calma...

Para refletir: o medo e a ansiedade podem tornar o atendimento odontológico um desafio, especialmente na infância. O Telessaúde Bahia apresenta orientações sobre o manejo do comportamento infantil no consultório odontológico. Leia o material completo.

O ritual da vassoura e o café que esfriou

 Entre decisões musicais, o silêncio da casa e a nobre arte de adiar o inevitável.

Ilustração de uma sala de estar acolhedora com uma xícara de café sobre a mesa em primeiro plano e uma vassoura encostada na estante ao fundo.


O sábado amanheceu com aquela luz bonita e enganosa de quem promete produtividade. Às oito da manhã, a decisão estava irrevogavelmente tomada: hoje a casa cai, no bom sentido. Janelas escancaradas para o ar renovado entrar, mangas da camisa dobradas até os cotovelos e a vassoura postada no centro exato da sala como um cetro de determinação doméstica. Era, sem sombra de dúvida, o dia da grande e gloriosa faxina.

A ditadura do ambiente perfeito

O grande problema da mente moderna, no entanto, não é a falta de vontade; é a tirania do ecossistema.

Ninguém mais simplesmente pega um pano e limpa um móvel. Em pleno século XXI, varrer uma sala exige uma atmosfera minuciosamente projetada. Ligar o aspirador em silêncio tornou-se uma afronta quase primitiva à experiência de existir. Para que o trabalho flua, a mente exige o acompanhamento tático de uma trilha sonora que honre o esforço físico que está por vir.

E foi exatamente aí, no momento de criar o cenário, que o meu plano vitorioso encontrou seu primeiro abismo.

Abri o aplicativo de áudio. "Playlist para limpar a casa", digitei na busca. A primeira opção sugerida parecia animada demais: um pop eletrônico frenético que exigiria de mim um ritmo de polichinelo totalmente incompatível com a minha digestão. A segunda opção era um jazz calmo e soturno, perigosa escolha para quem precisa de adrenalina imediata contra a poeira acumulada sobre o rack.

Desisti do áudio e mudei para o YouTube. Afinal, por que não alimentar o cérebro enquanto higienizo o lar? Talvez um podcast sobre crimes reais enquanto lavo a louça? Não, pensei, se eu me desconcentrar no clímax da investigação sobre o mistério do sótão, corro o risco de quebrar um copo de cristal. E um ensaio em vídeo sobre a arquitetura pós-moderna dos anos 90? Fiquei tentado. Parecia inteligente, mas será que combinava com o estado de espírito do balde e do detergente?

A transição imperceptível de executor para espectador

Passaram-se quarenta minutos. A vassoura continuava ereta, impávida, esperando ordens que nunca chegavam.

Acomodei-me na ponta do sofá "só enquanto o anúncio do vídeo passa". Foi quando o algoritmo, sempre vigilante e impiedoso, me sugeriu um documentário fascinante sobre a história das ferramentas manuais na Idade Média. Ajustei o travesseiro nas costas. Para acompanhar com o devido respeito o raciocínio profundo do narrador, servi-me de uma xícara de café bem quente.

Duas horas se passaram sem que eu pisasse no chão fora do perímetro do tapete. A luz do sol, que antes banhava a sala com o frescor das oito da manhã, já tinha mudado totalmente de ângulo, denunciando que o meio-dia se aproximava. O vídeo sobre ferramentas medievais levou-me, por uma teia inevitável de recomendações, a uma grande reportagem sobre a vida e a organização social das abelhas na Islândia.

O café na minha xícara, antes uma promessa borbulhante de energia e vitória, agora repousava opaco e completamente frio.

A paz com a imperfeição

Olhei para a vassoura, encostada na estante. A vassoura olhou para mim, em um silêncio carregado de julgamento.

Em algum lugar distante da internet, um influenciador vendia um curso revolucionário sobre "como gerenciar o seu tempo e ter manhãs hiperprodutivas". Na minha sala, no entanto, o único gerenciamento executado com maestria foi a transição impecável de organizador dedicado para estátua contemplativa com xícara na mão.

A casa, é claro, continuava precisando de atenção. Mas a trilha sonora e o repertório intelectual para acompanhar o meu fracasso? Esses sim, ficaram impecáveis.

O branco da televisão

 

Entre dentes brancos, sonhos interrompidos e a esperança de recomeçar.


Homem sentado de costas em uma sala escura, assistindo à televisão iluminada por luz azul, em uma cena cinematográfica que ilustra a crônica O branco da televisão.


Tantas histórias de superação chegam à cadeira odontológica que muitos dos meus próprios problemas se tornam ínfimos diante dos obstáculos enfrentados por esses pacientes.

A história de Leandro é marcada por mudanças físicas e psicológicas. Aos 22 anos, sofreu um acidente de moto, como tantos outros jovens que deixam de usar capacete. Teve lesões graves que comprometeram sua fala e sua locomoção, mas não lhe tiraram a fome de viver, a vontade de continuar lutando, de sorrir e de brincar com a própria situação.

Nas idas ao consultório odontológico, conheci um jovem que, mesmo depois de tudo, ainda sonhava em pegar sua moto e sair por aí, claro, agora devidamente protegido por um capacete. Reconquistar a namorada era outro sonho que alimentava, embora ela tivesse se afastado após o acidente.

O sorriso que vinha da televisão

Certo dia, Leandro chegou e disse:

— Olha, doutor, quero meus dentes dessa cor aí, ó!

Retirou de um dos bolsos um tubo de creme dental de uma marca famosa, apertou-o e deixou a pasta escorrer, espalhando creme dental por todo o instrumental.

— Branco assim?!

— Sim! Branco desse jeito, doutor!

Depois de muita conversa, Leandro se acalmou com a ajuda da mãe, que pacientemente me auxiliou a explicar que aquele branco do creme dental não ficaria bem em seus dentes.

E ele respondeu:

— Mas eu vi na TV!

Mudamos de assunto, e ele esqueceu a história dos dentes brancos do comercial de televisão.

O sonho de reencontrar um amor

Ele voltou ao consultório umas quatro vezes e não tocou mais no assunto. A bola da vez agora era a namorada. Insistia em saber quantos anos durava um curso de medicina. Todas as vezes, eu respondia. Pouco depois, ele perguntava novamente.

Mais tarde, descobri que a ex-namorada cursava medicina e que o havia deixado, dizendo que só voltaria quando terminasse o curso. Ele fazia planos enquanto o tempo passava.

Os sonhos que nos mantêm vivos

Talvez ele nunca mais a veja. Talvez seus dentes nunca fiquem tão brancos quanto os do ator do comercial de TV. Talvez seus sonhos mudem, sua vida tome outro rumo. Quem sabe, um dia, ele volte a andar e a falar como antes?

O mais importante, naquele momento, era estar vivo. Era ter a vida alimentada diariamente por pequenos sonhos: por comerciais de televisão, por uma namorada que já não estava ali, por uma corrida de moto que ainda não podia fazer.

Talvez tudo não passe mesmo de um grande sonho...

Quando a vida muda sem avisar: a história de Marta

 

Uma visita inesperada ao consultório revelou como a vida pode mudar sem que estejamos preparados.



Cada um sabe o momento certo de seguir, de parar ou até mesmo de mudar completamente a rota de tudo o que foi planejado. Há quem trace caminhos, estabeleça metas e imagine como serão os próximos capítulos. Outros simplesmente seguem, sem saber ao certo o que encontrarão na próxima curva.

Mas a vida nem sempre respeita nossos planos. Às vezes, ela muda o roteiro sem pedir licença.

Foi assim que Marta apareceu.

O dia em que Marta chegou ao consultório

Aos 23 anos, ela chegou ao consultório odontológico eufórica, falando palavras desconexas. Era uma metralhadora ambulante, disparando palavras sem parar, numa sequência que parecia não ter começo, meio ou fim. Foi difícil compreender o que realmente se passava em sua cabeça.

Naquele momento, nada parecia exigir qualquer procedimento odontológico. Ainda assim, Marta insistia que algo estava errado. Uma espécie de tormenta havia invadido o céu da sua boca.

O céu da boca de Marta era frio, seco, extremamente vermelho e, de tempos em tempos, segundo ela própria descrevia, chegava a jorrar sangue de sua parte mais profunda.

Marta não queria deixar o consultório. Insistia em permanecer ali, esperando a cachoeira de sangue que, em sua percepção, escorreria do céu de sua boca.

Esperamos quase uma hora, até que sua mãe chegou e nos apresentou uma realidade difícil de compreender.

Segundo ela, Marta levava uma vida perfeitamente normal. De repente, porém, parecia ter despertado como uma personagem fugindo de um roteiro mal escrito, inacabado.

As idas e vindas de Marta em busca de tratamento psicológico pareciam não ter aliviado as dores que carregava naquele novo capítulo de sua vida. Noites em claro eram subitamente substituídas por dias e mais dias de solidão, numa cama, em um quarto escuro.

As dores que nem sempre conseguimos compreender

O que teria acontecido para que tudo mudasse daquela maneira? Que pensamentos atravessavam sua mente enquanto o mundo ao redor continuava seguindo seu curso?

Eu não tinha respostas. E talvez essa fosse a parte mais difícil daquela experiência: perceber que, apesar de toda a nossa vontade de compreender e ajudar, existem dores que não conseguimos alcançar apenas com perguntas.

Depois de quase uma hora, Marta deixou o consultório amparada pelas mãos da mãe, que carinhosamente a acolhia e enxugava suas lágrimas. Elas escorriam pelo rosto da jovem como uma cachoeira em dia de chuva.

Fiquei ali, perplexo, perdido em pensamentos, tentando compreender o que havia presenciado.

Nem todos os capítulos da vida são visíveis

A vida é uma incógnita. Por mais que tentemos organizar nossos dias, construir certezas e imaginar o futuro, nem sempre conseguimos prever o que virá. Às vezes, uma pessoa que ontem parecia seguir tranquilamente seu caminho enfrenta, hoje, uma realidade inteiramente diferente.

A história de Marta me fez pensar em quantas coisas acontecem longe dos nossos olhos. Quantas pessoas atravessam tempestades silenciosas enquanto, por fora, o mundo parece seguir normalmente.

Nem sempre sabemos o que o outro está enfrentando. Nem sempre compreendemos suas palavras, seus gestos ou seus silêncios. E nem sempre temos condições de oferecer as respostas que gostaríamos.

Mas podemos aprender a olhar com mais atenção, ouvir com mais paciência e reconhecer os limites daquilo que sabemos.

Naquele dia, Marta chegou ao consultório com uma tormenta que eu não sabia explicar. Foi embora amparada pela mãe, levando consigo uma história que não cabia em uma ficha clínica.

E eu fiquei com uma certeza: a vida pode mudar sem avisar. Por isso, antes de julgar a caminhada de alguém, talvez seja melhor lembrar que não conhecemos todos os capítulos de sua história.