Quem trabalha em consultório aprende cedo que existem dois tipos de paciente. O primeiro chega pontual, de boca aberta e coração tranquilo. O segundo já chega com o diagnóstico pronto, a receita escrita e o exame solicitado. Só falta o diploma de odontologia.
Confesso que, nesses dias, a minha paciência também precisa de atendimento. Já contei até dez, até vinte, e quase cheguei aos carneirinhos com a cadeira reclinada. Foi nessas horas que entendi que paciência não é um dom que a pessoa tem ou deixa de ter. É um ponto a desenvolver, todos os dias.
E foi isso que me trouxe a uma pergunta que muita gente se faz, no trabalho, nas entrevistas e nas madrugadas: quais são os 5 pontos que eu devo desenvolver?
Ela aparece em entrevistas de emprego, em avaliações de desempenho e naquelas conversas silenciosas com o travesseiro. Vamos responder com calma e, claro, com paciência.
Ponto fraco, ponto de melhoria ou ponto a desenvolver?
Muita gente pesquisa esses três termos como se fossem sinônimos, mas o tom muda de um para o outro:
- Ponto fraco soa como um defeito fixo, algo que a pessoa "é".
- Ponto de melhoria indica algo que já foi percebido e pode ser lapidado.
- Ponto a desenvolver é a expressão mais saudável, porque pressupõe que existe um caminho a percorrer.
Ao longo do texto, vou usar a terceira. Habilidade não é destino, é treino.
Os 5 pontos que vale a pena desenvolver
1. Autoconhecimento
Tudo começa aqui. Não dá para melhorar o que não se enxerga. Pergunte-se: quando perco a paciência? O que costumo evitar fazer? Que feedback eu já ouvi três vezes e fingi que não era comigo? Um diário de uma linha por dia já ajuda bastante.
2. Comunicação
Falar bem não é falar muito. É ser claro, saber ouvir e adaptar a mensagem a quem está do outro lado. Quem atende pessoas sabe que a mesma explicação precisa de versões diferentes para cada ouvinte: o paciente com medo pede uma conversa, o apressado pede objetividade.
3. Inteligência emocional
É a capacidade de reconhecer o que você sente antes de reagir. Ela não elimina a raiva, a ansiedade ou o medo, mas cria um intervalo entre o impulso e a resposta, e é nesse intervalo que moram as melhores decisões.
Ninguém testa isso mais do que o paciente que atrasa sem avisar ou que falta sem uma ligação. Nessas horas, a gente descobre que a paciência é o músculo da inteligência emocional: só cresce com exercício, e o exercício vem justamente nos dias em que ela não aparece.
Já escrevi sobre isso aqui no blog, na crônica "Paciência". Se você já "viajou" para não perder a calma, vai se reconhecer.
4. Organização e gestão do tempo
Quase todo mundo diz que "falta tempo". Na maioria das vezes, falta prioridade. Comece escolhendo, a cada dia, as três tarefas que realmente movem a sua vida. O resto vem depois, e muitas vezes nem precisa vir.
5. Aprendizado contínuo
As habilidades que nos trouxeram até aqui nem sempre nos levam adiante. Quem mantém a curiosidade, lendo, fazendo cursos e conversando com gente diferente, envelhece profissionalmente mais devagar. Escolha uma habilidade por trimestre e dedique a ela 20 minutos por dia.
Como responder "quais são seus pontos a desenvolver?" na entrevista
Essa é uma das perguntas mais temidas por quem procura emprego. A boa notícia é que existe uma fórmula simples, em três passos:
- Escolha um ponto real, mas que não seja essencial para a vaga. Dizer "não tenho pontos fracos" soa arrogante, e dizer "sou perfeccionista" soa como resposta decorada.
- Mostre que você tem consciência dele. Exemplo: "Tenho dificuldade em delegar, porque gosto de garantir a qualidade de tudo."
- Conte o que você já está fazendo para melhorar. Exemplo: "Tenho treinado distribuir tarefas com prazos e critérios claros, e isso tem funcionado."
Três exemplos de resposta
- Delegar: "Eu tinha o hábito de querer fazer tudo sozinho. Hoje combino prazos e critérios com a equipe e acompanho no fim de cada semana."
- Falar em público: "Ficava nervoso em apresentações. Passei a me voluntariar nas reuniões curtas e já sinto mais segurança."
- Excesso de detalhes: "Às vezes me alongo nas explicações. Aprendi a começar pela conclusão e deixar os detalhes para quem pedir."
O que evitar
- Citar um ponto que seja exatamente o que a vaga exige (dificuldade com trabalho em equipe numa vaga de equipe, por exemplo).
- Respostas prontas, como "sou perfeccionista" ou "trabalho demais".
- Terminar a resposta sem dizer o que você faz para melhorar.
Os recrutadores não procuram alguém sem falhas. Procuram alguém que se conhece e se move. Para ler mais sobre o tema, vale conferir o guia da Na Prática, da Fundação Estudar, que também defende mostrar consciência dos pontos fracos e o trabalho para superá-los.
Um exercício para hoje
Pegue uma folha e escreva:
- 3 pontos fortes que as pessoas já reconhecem em você;
- 3 pontos a desenvolver que você mesmo reconhece;
- 1 ação pequena para cada ponto a desenvolver, algo que dê para fazer em menos de 15 minutos.
O crescimento raramente vem de grandes viradas. Vem de pequenas repetições.
Para fechar
Voltando ao paciente que chega com o diagnóstico pronto: hoje eu o vejo de outro jeito. Ele me lembra que cada um de nós carrega algo que ainda precisa aprender, e que, às vezes, o mestre é quem menos parece.
Desenvolver-se não é admitir que se é insuficiente. É reconhecer que ainda há muito de si mesmo para descobrir. Como disse Gustave Flaubert, talento significa uma enorme paciência. Que a gente encontre a nossa, mesmo que seja depois de contar as ovelhas.
Que sejamos todos abençoados pelo dom de recomeçar, todos os dias.
E você, qual ponto vai começar a desenvolver hoje? Conte aqui nos comentários.

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