O branco da televisão

 

Entre dentes brancos, sonhos interrompidos e a esperança de recomeçar.


Homem sentado de costas em uma sala escura, assistindo à televisão iluminada por luz azul, em uma cena cinematográfica que ilustra a crônica O branco da televisão.


Tantas histórias de superação chegam à cadeira odontológica que muitos dos meus próprios problemas se tornam ínfimos diante dos obstáculos enfrentados por esses pacientes.

A história de Leandro é marcada por mudanças físicas e psicológicas. Aos 22 anos, sofreu um acidente de moto, como tantos outros jovens que deixam de usar capacete. Teve lesões graves que comprometeram sua fala e sua locomoção, mas não lhe tiraram a fome de viver, a vontade de continuar lutando, de sorrir e de brincar com a própria situação.

Nas idas ao consultório odontológico, conheci um jovem que, mesmo depois de tudo, ainda sonhava em pegar sua moto e sair por aí, claro, agora devidamente protegido por um capacete. Reconquistar a namorada era outro sonho que alimentava, embora ela tivesse se afastado após o acidente.

O sorriso que vinha da televisão

Certo dia, Leandro chegou e disse:

— Olha, doutor, quero meus dentes dessa cor aí, ó!

Retirou de um dos bolsos um tubo de creme dental de uma marca famosa, apertou-o e deixou a pasta escorrer, espalhando creme dental por todo o instrumental.

— Branco assim?!

— Sim! Branco desse jeito, doutor!

Depois de muita conversa, Leandro se acalmou com a ajuda da mãe, que pacientemente me auxiliou a explicar que aquele branco do creme dental não ficaria bem em seus dentes.

E ele respondeu:

— Mas eu vi na TV!

Mudamos de assunto, e ele esqueceu a história dos dentes brancos do comercial de televisão.

O sonho de reencontrar um amor

Ele voltou ao consultório umas quatro vezes e não tocou mais no assunto. A bola da vez agora era a namorada. Insistia em saber quantos anos durava um curso de medicina. Todas as vezes, eu respondia. Pouco depois, ele perguntava novamente.

Mais tarde, descobri que a ex-namorada cursava medicina e que o havia deixado, dizendo que só voltaria quando terminasse o curso. Ele fazia planos enquanto o tempo passava.

Os sonhos que nos mantêm vivos

Talvez ele nunca mais a veja. Talvez seus dentes nunca fiquem tão brancos quanto os do ator do comercial de TV. Talvez seus sonhos mudem, sua vida tome outro rumo. Quem sabe, um dia, ele volte a andar e a falar como antes?

O mais importante, naquele momento, era estar vivo. Era ter a vida alimentada diariamente por pequenos sonhos: por comerciais de televisão, por uma namorada que já não estava ali, por uma corrida de moto que ainda não podia fazer.

Talvez tudo não passe mesmo de um grande sonho...

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