Liberar o que sentimos através das palavras, através da música, do teatro, do esporte, nos faz seres humanos mais completos, nos situa dentro de uma atmosfera permeada de sonhos e realidades, possíveis e inexoráveis muitas vezes.
Crescer acreditando que podemos ser tudo aquilo que sonhamos, tudo aquilo que desejamos quando criança, e que na adolescência e já na vida adulta mesmo diante de uma vida real, concreta ainda somos feitos de sonhos, e que sempre poderemos nos transformar naquilo que desejarmos.
A sociedade, a cultura e a família desenvolvem um papel importante contribuindo com suas parcelas no crescimento dos sonhos de cada um... Destroem-se, aniquilam-se ou inundam-se de esperanças.
Quando há espaço todos são capazes de brilhar, de se transformar, de melhorar, seja habitante de uma grande metrópole ou sobrevivente de uma grande favela.
Convidado a participar da Semana Comunitára da comunidade à qual trabalho, fiquei emocionado ao ver tantos talentos, tantas crianças, jovens,adultos e idosos reunidos num espaço vivenciando o bem através da música, do teatro, do esporte. Uma aula de cultura e cidadania...
Tudo só comprovando que o tempo de cada um pode ser voltado para a realização de sonhos que podem se tornar realidade, e que o teatro, o esporte e a música podem envolver tantos jovens e adultos que cada vez mais se afastarão das drogas e do crime.
Toda a comunidade se movimenta numa semana voltada para a cultura expressada através da arte de cada um, seja aluno, professor, trabalhador etc. E tudo isso, organizado por eles mesmos, cujo mérito cabe somente à eles, sem assistenciliasmo,sem interferência do poder público.
Uma verdadeira demonstração de que mesmo com tão pouco se pode chegar tão longe.
Abraços a todos!
Muitas situações ainda me surpreendem, muitas histórias ainda me fazem pensar o quanto díspares nós somos, quantas angústias carregamos no silêncio diário de nossas vidas, quantos medos abafamos, e quantos sofrimentos desnecessários criamos diariamente.
Duas vidas, duas crianças, dois futuros tão diferentes... São essas as imagens que guardo de duas pacientes que chegaram ao consultório trazendo além do medo e ansiedade, algumas lições. A primeira grávida aos 16 anos de idade, relatou que não esperava ter a criança, que não estava nos seus planos tê-la, confessou-me até que no início fez planos para cometer um aborto, felizmente não o concretizou. Aos sete meses de gestação, carrega no seu âmago a dúvida, a incerteza quanto ao futuro dela e da criança... Uma criança despreparada pela família, pela sociedade, enfim,marginalizada, à procura de apoio, de carinho, de informação para continuar seguindo sua vida sem erros, sem medos... Neste exato momento, de acordo com o que ela me relatou, a sua grande insatisfação relaciona-se, não mais com o fato de estar grávida, mas por não ser batizada, isso mesmo, ela é católica,frequenta a igreja,mas nunca foi batizada, e colocaram na cabeça dela que ela não é "gente", que o filho dela pode nem nascer por causa disso, e que ela está no "inferno" por não ser batizada... Depois que ela desabafou esses medos, parei e pensei no quanto a religião, a família, a escola são importantes para moldar a personalidade ,e que educação é tão importante,e não falo somente de aprender a escrever o nome para passar de ano, mas saber distinguir o certo do errado e não ser manipulado, não se sentir um fantoche nas mãos dos outros... Tentei mostrar para ela que Deus não a punirá por ela não ser batizada, que o filho dela não morrerá por causa disso, que ela fique tranquila e espere a hora do parto, e mais, que o inferno somos nós que criamos em nossas consciências, e que ela tenha paz de espírito, cuide da sua sáude e faça de tudo para ter um filho saudável,mesmo que em condições adversas.
A segunda paciente, uma criança de apenas nove anos sentou na cadeira odontológica e não parou mais de falar... Incrível a capacidade dela de articular histórias, de contar seus medos, suas necessidades, talvez a ansiedade, o medo da situação tenha colocado-a diante de um impasse, falar para esquecer , para criar subterfúgios que fujam à dor. Adorei ouvir suas histórias, o dia do nascimento, com data,hora,minutos e segundos... Nove anos e muitas histórias,e sonhos para um futuro promissor relatado pelo gosto da leitura, felicidade estampada no rosto,mesmo faltando muito.
As duas são socialmente inseridas na mesma comunidade, frequentam a mesma escola,mas são tão diferentes que parecem ser de dois mundos tão dístintos quanto longínquos. As características inatas de cada uma, a história delas segue trilhas diferentes, e os finais poderiam ser o mesmo se tivéssemos mais educação, esporte, lazer de qualidade, famílias equilibradas, professores adequados,enfim,uma sociedade onde não houvesse ninguém à margem, à mercê de conhecimento, de carinho, de afeto.
Abraço a todos.
A diversidade de pacientes muitas vezes ainda me faz parar e pensar, no quanto somos iguais e ao mesmo tempo tão diferentes. Nossos medos, nossas dúvidas, nossas tristezas, nossas alegrias são tão parecidos que o nosso egoismo às vezes nos faz pensar que somos únicos, que somos os únicos a sofrer,ou os únicos a sorrir... Não somos, nem nunca seremos nós mesmos sem estarmos preparados a aceitar o outro,mas antes temos que nos aceitar, nos amar, nos respeitar,e tudo mais vem de volta, é a lei de causa e efeito,se dou amor,receberei amor...
Depois de alguns pacientes atendidos encontra-se uma faca debaixo da cadeira odontológica. Não era minha, muito menos da auxiliar que foi logo assustada se justificando,pois então, de quem era a faca?!? Passamos alguns minutos discutindo, criando e "viajando" em idéias absurdas para a origem da faca,mas nada de concreto,nenhuma solução viável. Depois de abordados todos os funcionários da unidade, e de sabermos que nenhum deles era o dono da faca, é claro que só poderia ser de algum paciente que a deixou cair logo após o atendimento. Mas qual paciente? Quem levaria uma faca para um consultório odontológico? Quais os motivos? E como a deixou cair sem vestígios, sem barulho? Dúvidas e mais dúvidas...
A faca, de uns 15cm,devidamente protegida por uma bainha verde foi guardada à espera de seu dono. Será que ele(a) aparecerá ? Estamos aguardando ansiosos...
amilton
Depois de muitos planos traçados,seguidos ou não, sempre estaremos voltando,prontos ou não. Muitos são os caminhos, muitas são as escolhas, às vezes seguimos trilhas nunca antes planejadas, nunca antes imaginadas.
A volta sempre será marcada por alguns traços, sejam eles bons ou ruins, brancos ou pretos, doces ou amargos. Alguns ficam, outros vão e muitos passam incólumes, muitos deixam marcas, boas ou más...
Com o tempo descobrimos que muitas trilhas nunca imaginadas se tornaram caminhos seguros e amenos.
Com o tempo descobrimos que muitos abrigos sempre seguros se tornaram perigosos labirintos.
E estaremos sempre expostos a perigos...
E seremos sempre moldados pelas nossas escolhas...
E terminaremos sempre começando...
E voltaremos sempre a recomeçar inúmeras vezes...
E descobriremos quantas dúvidas, quantos anseios, quantos caminhos, quantas trilhas ainda temos que percorrer...
E chegaremos ao final cansados, marcados pelo suor, mas estaremos sempre dispostos a recomeçar.
amilton