SOBRE DENTES, DORES E PERDÃ0

Como tantos pacientes, Lurdes refletiu nas palavras soltas durante os primeiros minutos de atendimento o que seu rosto estampava: tristeza, medo, ansiedade... E a história dela passou a ser relatada como um desabafo, como uma válvula de escape para tantos sentimentos incontidos e incompreendidos.
Da apreensão para tratar o dente “carreado” ( ao referir-se ao dente cariado da forma mais inusitada possível), Lurdes pediu permissão para sentenciar a morte de tudo que a incomodava, de tudo que a atormentava. Não pareceu simples de imediato, mas talvez fácil para quem estivesse disposto a ouvi-la.
O que mais a perturbava, não era o dente “carreado”, era o abandono, a solidão, o desprezo e a violência que sofria do único homem que ela amou, e que agora a trocou por outra mais jovem, largando-a com quatro filhos para criar. Este mesmo homem que ela diz amar loucamente, que diz perdoar incondicionalmente, este mesmo homem a espancou diversas vezes na frente dos filhos, humilhou-a em público, a fez perder um filho ao chutar sua barriga de sete meses.
Eu ouvi tudo, e mesmo depois de seguidas frases e choros Lurdes não dava espaço para que eu me manifestasse. Mas como eu reagiria? A própria iniciou seu relato dizendo que amava este homem, que o perdoava, e o queria de volta mesmo depois de todo o mal que ele lhe proporcionou.
A vida e o destino de Lurdes, de 38 anos, não está nas minhas mãos. Definitivamente ela já tem uma opinião formada. Nem todo o sofrimento a fez mudar, amadurecer. Daí me questiono sobre a normalidade do que passa  a ser para uns e outros, da dor e do perdão que significam para uns e outros não. Para alguns, talvez seja cômodo manter uma dor, sim porque ela sofre duas vezes, com o marido que na presença a espanca e na ausência a faz sofrer querendo a sua volta. Complicado relacionar uma solução...
Lurdes saiu do consultório disposta a procurar o marido e a tê-lo de volta nos braços, mesmo sabendo que possíveis dores físicas e emocionais a aguardavam...
5 Responses
  1. Kellen Says:

    É meu amigo, dentista muitas vezes é psicólogo!
    Que bom que voltou!
    bjs


  2. Amilton Says:

    Pois é Kellen, somos mesmo, e a paciência nosso guia... Obrigado pelo carinho sempre!! E espero, sempre que o tempo e a criatividade permitirem, postar coisas por aqui. bjs


  3. Tabath Says:

    Lurdes não se valoriza. Valoriza mais o amor do que a sí mesma. E dá? Dá sim! Hoje em dia só o que tem são "Lurdes", que teimam em colocar outra pessoa antes de seu amor-próprio. Eu, particularmente, acho uma troca muito egoísta, mas fazer o que? Sentimento, principalmente amor, a gente não deve contestar - porque não se explica.


  4. Amilton Says:

    Tabath, com certeza que falta valorização para Lurdes, e dai surge um certo egoismo porque , certamente, ela esquece dos filhos que sofrem... Mas até onde vai o perdão? Até onde vai a dor , o sofrimento? E o amor? Qual o amor ideal? O que parece bom e cômodo para mim pode ser completamente inviável para Lurdes...
    Obrigado pela visita!


  5. Ana Carolina Says:

    Olá,
    que texto maneiro , para ser dentista tem q ter muita paciencia mesmo!. Eu encontrei o meu dentista no site Help Saúde.Eles tem um banco de dados onde dá pode encontrar um qualquer profissional da área da saúde mais perto de você e no perfil dele descobrir quais planos de saúde ele aceita e até a sua especialização!!

    É mto bom galera!! :)

    Vejam aqui no link: www.helpsaude.com

    #ficaadica
    Beijinhos
    Ana Carol