O paciente que pediu para eu não contar nada à esposa: crônica do medo na cadeira do dentista

Homem brasileiro sentado em cadeira odontológica, com as mãos apertadas no apoio, demonstrando medo e ansiedade antes da consulta com o dentista.

 

Ele entrou no consultório sorrindo.

Mas era aquele tipo de sorriso que não chega aos olhos. Um sorriso de quem aprendeu, com o tempo, a disfarçar o que sente antes que os outros percebam.

— Doutor, eu tenho uma coisa para confessar — disse, ainda parado na porta.

Sorri, tentando aliviar o clima.

— Pode falar. Aqui é lugar de confissão.

Ele olhou para a cadeira odontológica como quem olha para um tribunal. Depois, baixou a voz:

— Eu tenho medo de dentista.

Não disse “um pouco de medo”. Não disse “nervosismo”. Disse medo, com a simplicidade de quem carrega aquilo há anos.

Convidei-o para sentar. Ele sentou devagar, como se a cadeira fosse feita de vidro. Apertou o braço da poltrona com tanta força que os dedos ficaram brancos.

— Posso te contar uma coisa? — perguntou.

— Claro.

— Minha esposa não pode saber que eu vim aqui.

Olhei para ele, curioso.

— Por quê?

— Porque ela vive me chamando para marcar consulta. Eu sempre digo que vou marcar. Mas nunca marco. Hoje eu vim escondido.

Ri, mas com respeito. Havia algo muito humano naquela cena: um homem adulto, pai, trabalhador, capaz de resolver problemas difíceis da vida, encolhido diante de uma cadeira e de uma seringa.

Comecei conversando. Não falei de dente, não falei de tratamento, não falei de anestesia. Perguntei onde ele tinha crescido, o que fazia, se tinha filhos. Ele foi respondendo, aos poucos, e o corpo foi esquecendo um pouco da defesa.

Então ele contou.

Quando era menino, uma molar doeu tanto que ele passou a noite inteira acordado. No dia seguinte, a mãe o levou ao dentista. Ele lembrou do cheiro forte do consultório, do barulho da broca, da luz branca em cima do rosto e da sensação de estar preso naquela cadeira, sem poder fugir.

— Aquilo ficou em mim — disse. — Parece bobagem, né?

— Não parece — respondi. — O medo nunca é bobagem. Ele é uma memória do corpo.

Ele suspirou.

— Eu sei que tenho que cuidar. Mas toda vez que penso em marcar, invento uma desculpa. Trabalho, reunião, cansaço. Até chuva.

— E hoje?

— Hoje a dor não me deu escolha.

Essa é uma das frases que mais escuto no consultório, de formas diferentes: “A dor não me deu escolha.”

As pessoas não costumam vir ao dentista porque querem. Muitas vêm porque a dor chegou primeiro, porque o dente quebrou, porque a gengiva sangrou, porque o sorriso começou a envergonhar. E, enquanto isso, o medo fica lá, alimentando o adiamento.

O medo de dentista é mais comum do que se imagina. Estudos apontam que parte expressiva dos adultos apresenta ansiedade odontológica, e o receio da dor, das agulhas e da anestesia está entre as principais causas. Não é falta de coragem; muitas vezes é uma lembrança antiga que ainda manda recado.

Continuei o atendimento explicando cada passo antes de fazer. Avisei quando ia tocar, quando ia usar o instrumento, quando sentiria pressão e quando não sentiria nada. Não porque ele fosse criança, mas porque o medo diminui quando a pessoa entende o que está acontecendo.

Em determinado momento, ele fechou os olhos.

— Doutor, já vai doer?

— Ainda não comecei. E, quando começar, você levanta a mão. Eu paro.

Ele abriu um olho.

— Pode parar mesmo?

— Pode.

Foi então que ele relaxou. Não completamente, mas o suficiente.

Durante o procedimento, ele ficou em silêncio. De vez em quando, olhava para o teto. Em outro momento, perguntou:

— Doutor, o senhor acha que eu sou covarde?

Parei por um segundo.

— Não. Covarde é quem sabe que precisa cuidar e deixa a dor decidir por ele. Você veio. Isso é coragem.

Ele não respondeu. Mas vi o canto da boca se mexer, como quem guarda um sorriso para depois.

Quando terminei, ele se sentou diante do espelho. Olhou os dentes, passou a língua devagar, como quem reconhece um lugar de que tinha medo.

— Está tudo bem? — perguntou.

— Está — disse ele. — Melhor do que eu esperava.

Levantou-se, ajustou a camisa e, antes de sair, voltou-se para mim:

— Doutor, pode contar para minha esposa?

Ri.

— Pode. Mas eu vou contar a versão bonita: um homem que tinha medo, mesmo assim apareceu.

Ele sorriu de verdade dessa vez.

Na porta, ainda disse:

— Da próxima vez eu venho sem dor.

— Eu espero — respondi.

E, quando ele saiu, pensei que talvez fosse isso a odontologia, no fundo: menos brocas, menos seringas, menos dentes. Mais pessoas aprendendo que podem confiar, que podem ser cuidadas e que o medo, quando é dito em voz alta, perde um pouco do seu poder.

Às vezes, a maior coragem não é vencer o medo de uma vez.

É apenas entrar no consultório.

“Ninguém tem medo apenas do dentista. Muitos têm medo de perder o controle, de sentir dor outra vez ou de ser julgado por ter demorado tanto para buscar ajuda.”


Você também já adiou uma ida ao dentista por medo? Conte nos comentários: qual foi a parte que mais te assustava: a agulha, o barulho da broca ou simplesmente sentar na cadeira?

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