Uma conversa inesperada revela como experiências passadas podem despertar sentimentos contraditórios, e como um desconhecido pode se tornar, por alguns minutos, alguém disposto a escutar.
Entre o amor e o ressentimento
Despertar sentimentos, conviver com a necessidade de ser amado e com o medo de ser odiado. Tudo parece planejado, mas, muitas vezes, acontece de maneira inesperada.
Os desejos, a busca pelo novo, o amor fraterno, o amor involuntário e o amor universal parecem percorrer caminhos menos tortuosos.
Mas também existe o ódio involuntário, aquele que nasce de situações banais, de experiências dolorosas ou de acontecimentos que talvez pudessem ter sido evitados.
Amor e ódio podem caminhar juntos. Ainda assim, os caminhos que conduzem a esses sentimentos poderiam ser moldados de outra maneira, evitando ambiguidades, desapontamentos, ressentimentos, desencantos e tristezas que, por vezes, parecem não ter fim.
Os caminhos são muitos. As escolhas, nem sempre acertadas. E os sentimentos que nos conduzem ao amor ou ao ódio também carregam suas imperfeições.
Uma desconhecida, uma festa e uma declaração inesperada
Certa noite, em uma festa qualquer, esbarrei em uma desconhecida que começou a conversar comigo sem parar.
Simplesmente não havia espaço para que eu dissesse: “Até logo, foi um prazer conhecê-la”.
Nada disso.
Ela se transformou em uma verdadeira metralhadora falante, disparando palavras de segundo em segundo. Eu já estava assustado com aquela enxurrada de frases e, sinceramente, só queria encontrar uma maneira educada de me desvencilhar da situação.
Foi então que ela me perguntou o que eu fazia da vida.
Respondi que era dentista.
Naquele instante, sua expressão mudou. Em voz alta, ela declarou:
- Eu odeio dentistas!
Fiquei surpreso. Confesso que também senti certo receio diante daquela reação tão inesperada.
Perguntei:
- Como você pode odiar uma pessoa que nem conhece?
Ela não hesitou:
- Eu odeio você, sim. Mas também amo você!
Foi aí que fiquei ainda mais confuso.
Por alguns segundos, tentei compreender como alguém poderia odiar e amar, ao mesmo tempo, uma pessoa com quem acabara de conversar.
A resposta veio logo depois.
Ela odiava os dentistas. Como eu era dentista, também me odiava. Mas, ao mesmo tempo, dizia me amar.
Era uma contradição sustentada por experiências anteriores, por lembranças de consultórios odontológicos, por dores que havia sentido e, curiosamente, também por dores que tinham sido aliviadas na cadeira do dentista.
Por trás daquela declaração tão estranha, havia uma história. Talvez várias.
O que existe por trás do ódio?
Meus amigos chegaram, e a conversa perdeu espaço para outras vozes. Finalmente, a metralhadora de palavras silenciou.
Nos despedimos.
Ainda olhei discretamente ao redor, quase como quem verifica se não estava sendo seguido. Para minha sorte, ela desapareceu na multidão.
Nunca mais a encontrei.
Mas aquela conversa permaneceu comigo.
Às vezes, permitir que alguém fale, deixar que sentimentos sejam expressos e oferecer alguns minutos de escuta pode significar muito para quem carrega dores que não consegue compartilhar.
Não precisamos conhecer toda a história de alguém para perceber que existe algo sendo pedido por trás das palavras. Nem sempre esse pedido é explícito. Às vezes, ele aparece disfarçado de raiva, impaciência, contradição ou de uma conversa que parece não ter fim.
Talvez aquela jovem estivesse apenas procurando ser acolhida ao ser ouvida.
Talvez odiasse a situação em que sua vida se encontrava. Talvez amasse alguém que não a correspondia. Talvez estivesse cansada de não encontrar espaço para falar sobre o que sentia.
Ou talvez precisasse simplesmente encontrar alguém disposto a escutar suas dores, seus amores e suas lamentações sem julgá-la.
E, curiosamente, um desconhecido pode oferecer algo que nem sempre encontramos entre pessoas próximas: a liberdade de falar sem o peso de uma história compartilhada, sem a preocupação com o que virá depois e sem a necessidade de explicar quem somos.
Às vezes, tudo começa quando alguém escuta
Ela não precisava me dizer seu nome, seu endereço ou qualquer detalhe de sua vida. Eu não precisava conhecer seu passado para ouvir o que ela tinha a dizer.
Talvez, naquele breve encontro, o mais importante não fosse compreender por que ela me odiava ou por que afirmava me amar.
Talvez o mais importante fosse perceber que, por trás daquela declaração contraditória, havia alguém tentando colocar para fora sentimentos que pareciam não encontrar outro caminho.
Nunca saberei se ela se sentiu melhor depois daquela conversa. Também não sei se alguém, em algum outro momento, conseguiu ouvi-la com a paciência que talvez procurasse.
O que sei é que, naquela noite, uma desconhecida me fez pensar sobre a distância entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos expressar.
Nem sempre sabemos pedir acolhimento. Nem sempre conseguimos transformar a dor em palavras serenas. E nem sempre quem está diante de nós compreende o que realmente estamos tentando dizer.
Por isso, antes de responder à raiva com mais raiva, talvez valha a pena tentar escutar. Não para aceitar qualquer comportamento, nem para assumir a responsabilidade pelos problemas alheios, mas para reconhecer que cada pessoa carrega uma história que desconhecemos.
Aquela jovem precisava simplesmente ser ouvida.
Nem que, para isso, tivesse de me odiar e me amar sem nunca ter me conhecido de verdade- e, provavelmente, sem nunca mais voltar a me encontrar.
