O Manifesto dos Frangos


           A alguns anos atrás,quando comecei a trabalhar com saúde pública,mais especificamente na Estratégia de Saúde da Família,eu e o restante da equipe(médico,enfermeiro e auxiliares) nos deslocávamos quilômetros até a sede da equipe,mas  a viagem parecia bem mais longa devido o caminho tortuoso e esburacado.
Bem,mas isso era fichinha quando chegava a hora do almoço(rsrs).Diariamente recebíamos frango(o animal era entregue quase vivo),e daí tínhamos que nos virar para que o amigo frango virasse nosso almoço.E isso já estava me cansando...Era frango todo dia,eu já não agüentava mais.E num belo dia de folga,escrevi o Manifesto dos Frangos.Nada mais justo que os próprios animais torturados,mortos,e comidos,fossem a público e escancarassem o que estava acontecendo.Então,os frangos pediram em nome da vida deles que as nossas vidas fossem também preservadas.Eles estavam ,assim,com
peninha
de nós.No final,questionavam a possibilidade de asas crescerem,e se seria possível os dentistas,médicos e enfermeiros saírem voando da cidade até o posto de apoio da equipe,e se essa era a intenção do prefeito,ou seja,economizar combustível infiltrando asas nos humanos.
    O manifesto nada mais era do que uma grande bobagem que deveria ficar entre nós,profissionais sofredores comedores de frango diários.Mas não,o dito papel com o manifesto foi parar no gabinete do prefeito(estamos lascados,pensei!rsrs).A demissão já era certa!(pensei)! Mas,pasmem,o prefeito resolveu levar tudo na maior brincadeira,e pra nossa alegria,mudou completamente o cardápio de nosso almoço,e assim,salvaram-se muitos,muitos frangos... E o manifesto rodou  nas mãos de anônimos e curiosos,mas nunca souberam quem realmente o escreveu(acho que agora podem saber!rsrs).

A Gafe

 
       Uma senhora de 60 anos de idade mostrou-se apreensiva,insegura e demonstrou medo excessivo ao entrar no consultório odontológico.Ela estava acompanhada de um jovem de aproximadamente 28 anos que demosntrou sempre estar  calmo e sério. -A senhora pode entrar com o seu filho!-Falei tentando acalmá-la, e o jovem saltou de lá com uma voz séria e contundente: -Ela não é minha mãe,é minha mulher!. Bem,fiquei com cara de bobo,tentei disfarçar a gafe e falei: -Sua esposa,certo! Então,por favor,entre com sua esposa.E os dois entraram no consultório...
          Ela poderia ser a avó dele, a mãe dele,mas era a esposa dele.
          Logo de cara,ao vê-la na sala de espera notei diferenças no comportamento,no modo de vestir.Ela usava um vestido bastante jovial para a idade,róseo,meio colado ao corpo(nada de Geisy da Uniban,esqueçam! hehe),e um batom vermelho ao extremo.Pois é,ela fisiologicamente tinha 60 anos,mas a sua idade psicológica era outra completamente diferente,a começar pelo companheiro.


          Ao tratar o casal por mãe e filho,certamente não fui preconceituoso,longe disso.Apenas cometi uma gafe que me deixou vermelho por minutos,e completamente sem jeito também.Mas adorei ver aquela senhora casada com um jovem,e feliz da vida.
         Lembrei do magnífico filme O Leitor,e a bela atuação de Kate Winslet no papel de uma senhora que vive um caso de amor com um adolescente.Novelas,filmes e seriados tentam atualmente caracterizar cada vez mais a situação.Cougar Town(essa eu adoro,Courtney Cox tá perfeita,hilária) e Accidentally on Purpose são dois seriados americanos que mostram duas jovens senhoras `as voltas com relacionamentos mais jovens.E por ai vai...
       E olhem que esses filmes,seriados e novelas,muitas vezes retratam a situacão dentro de uma sociedade complexa e até,talvez,menos preconceituosa que a de uma pequena cidade do interior nordestino,aonde vivo e trabalho,e aonde essa senhora quebra regras e age dessa forma,não se intimidando com os preconceitos que por aqui existem aos montes,como existem também em Nova York,São Paulo,Tókio etc.
      E vivam as diferenças,e pausa aos preconceitos...
         

Hipocondríacos

       Há dias que a hipocondria,de alguns pacientes ou não, me atormenta,e isso já tem se tornado algo tão frequente na rotina dos atendimentos que certos pacientes já surturam na ausência do comprimido,do remédio.Algum tempo atrás uma jovem senhora ameaçou ficar completamente nua se não recebesse a receita de tranquilizante que ela "supostamente" necessitava.Um vício de muito tempo...
   "A vida é bela,o paraíso é um comprimido",esses versos caracterizados na voz de Dinho Ouro Preto refletem um pouco aonde chegamos e até que ponto poderemos enxergar uma saída.Certamente,o paraíso passageiro encontrado numa cápsula,num comprimido,é desvirtuado pelo inferno da impaciência,ansiedade,depressão exacerbada,enfim,traumas com marcas profundas.
    Poderíamos encontrar muitos culpados,mas nunca nós mesmos,seja como pacientes ou profissionais de saúde.Inseridos num sistema hegemônico  ,centrado na doença,hospitalocêntrico e que marginaliza,ainda temos muito o que mudar.
    Depois de atender a uma adolescente,fui inesperadamente abordado pela mãe eufórica da garota que reclamava porque eu não havia prescrito nenhum analgésico para a filha.Expliquei que não havia necessidade,pois o procedimento tinha sido extremamente simples,apenas uma restauração,simplesmente.Mas a mãe da garota não se conteve,queria de qualquer forma o analgésico,simulando uma suposta dor que a filha vinha sentindo no dente a dias,o que nada foi constatado,nem por mim e nem relatado pela adolescente,que todo tempo se manteve em silêncio,enquanto a apavorada mãe falava e andava de um lado para o outro...
    Ela saiu irritada,sem o analgésico...
    Casos de pacientes hipocondríacos existem aos montes,diariamente convivo com historias bem parecidas como essa.Educar as pessoas a enxergar e viver saúde não como simplesmente a ausência de doença,mas viver em sua total plenitude, é algo que ainda precisa ser inserido na educação,seja ela individual ou da coletividade.Muitos desses pacientes precisam de tratamento psicológico,precisam enxergar muito além da dor,da falta dela,da importância de encontrar uma vida pautada na felicidade,serenidade e equilíbrio longe das fórmulas químicas disponíveis nas farmácias.
     Façamos nossa parte...


A ira de Gustavo


    Gustavo tem apenas cinco anos e chegou ao consultório odontológico acompanhado da mãe,uma jovem de 23 anos.
     Quando Gustavo veio ao mundo,sua mãe era apenas uma adolescente que acrescentava números às tão drásticas estatísticas de mães adolescentes,solteiras e completamente despreparadas.

      Sério,olhar inquieto,mãos comprimidas,e sempre ao lado da mãe o garoto não abriu a boca uma única vez até deitar na cadeira odontológica e começar a gritar,gritar e gritar sem parar.Os pedidos da mãe foram em vão,e o silêncio só veio depois de muitas promessas,de muita conversa.E logo foi interrompido por mais gritos...
      Gustavo passou a esmurrar a mãe com uma força impressionante,e a jovem completamente sem ação parecia deixar-se dominar pelo garotinho.Pedi calmamente que ele parasse,e que nada de ruim seria feito com ele,absolutamente nada.E a jovem mãe gritou,era sua vez de gritar.Foi então que o garoto começou a se esmurrar,dava murros no próprio corpo com muita força.Pedi que saíssem do consultório,e só assim Gustavo se acalmou.
       Lembrei de outros pequenos pacientes que já quebraram fotopolimerizadores,derrubaram bandejas,morderam meus dedos...
       Gustavo saiu arrastado pelas mãos da mãe que não conseguia controlar a ira do pequeno,e ele só tinha 5 anos...