Sobre dores e desafios




                 O mundo  pode nos parecer simples, fácil e muitas vezes colorido, mas nem sempre foi assim na vida de muitos. E muitos dos pacientes com que dialogo constantemente fazem transparecer em seus cotidianos tons diversos e adversos, muitas vezes  cinza e completamente descoloridos. Outros tratam de largar tons vermelhos, amarelos, enfim, muitas cores no que ora lhes parecia preto e branco.
           Quando cada um deles, os pacientes, descarregam suas histórias, fica sempre em minha mente o quanto ainda tenho que percorrer para lembrar quão pequenos são meus problemas, quão descomplicadas são as trilhas que traço e os erros que ora cometo.
          A paciência desapareceu completamente por poucos minutos na vida de Antônia, 30 e poucos anos, mãe solteira, três filhos, sendo um deles deficiente físico. Não havia motivos para que ela surtasse naquele exato momento diante da auxiliar de saúde bucal. O silêncio pairou no ambiente por algum tempo... Foi colocado o tempo adequado para que aquela mãe exorcisasse alguns fantasmas que a atormentam, mesmo que parcialmente e diante de estranhos. Incrível como muitas pessoas se sentem tão confortável em desaguar suas mágoas diante de desconhecidos.
         Quando somente o silêncio nos deu forças para seguir, a mãe desesperada começou a chorar, e depois veio o pedido de desculpas acompanhado do choro da filha de 8 anos.
         E este foi mais um dia, depois de tantas histórias que ousam cruzar meu caminho, e com tão pouco tempo para resumi-las e compartilhá-las, que fico pensando nas dores e angústias de cada paciente que senta na cadeira odontológica e utiliza o pequeno espaço de tempo para criar uma relação de confiança e afeto. Fica a cada um deles, mesmo que carregados de dores e desafios, o meu sincero desejo para que todos os caminhos sejam interligados de paz e harmonia, e que a dor seja passageira, que o tédio seja dizimado pelo calor das poucas e boas palavras, mesmo que de completos desconhecidos.

Um Dente, Uma Vida, Um Natal


       Quando Cristina veio ao mundo a Alemanha era dividida por um muro, o Brasil vivia uma ditadura, carnaval e futebol amenizavam as dores fisicas e emocionais. Ilusões substituíam uma realidade sem analgésicos, sem possibilidade de curas. O mundo de Cristina era em preto e branco, o mesmo preto e branco da TV utilizada para viagens através das fantasias criadas por  Monteiro Lobato e o televisivo O Sítio do Pica-Pau Amarelo.
   Cristina chegou ao consultório odontológico procurando curar uma dor de dente que a atormentava a dias. Sua história de vida veio junta com dúvidas e dores embaladas para distrair e amenizar o clima retratado em tons cinzas. Talvez essa época  e tudo que ela representa simbolizado por desejos de paz, amor,renascimento, talvez isso tenha diminuído as dores de Cristina... Talvez sim, talvez não...
   O certo é que Natal não representava muita coisa para ela. Fugir de tudo era o que desejava. A dor a atormentava. A paz era insólita demais. Um dente, um inferno em sua vida. Retratar seus lamentos em poucas linhas é quase impossível...
   Talvez ela nunca tenha a família reunida numa noite de Natal, talvez não troque presentes, não vá a cultos, não acredite em Papai Noel desde os sete anos de vida, mas uma coisa é certa: ela quer paz. O trabalho voluntário para ajudar seus vizinhos menos favorecidos, mesmo sendo ela tão carente, é uma constante em sua vida. E ela não liga muito para o que pensam dela. Os comerciais da TV, a vida artificial que ela proporciona está longe do Natal de Cristina. Ele é muito mais que isso: é amor ao próximo, aos filhos, valor ao pouco que possui, à luta diária para sobreviver... E Cristina quer sempre paz, sem dores, sem dúvidas...
    Aproveito a oportunidade da história de vida de Cristina, e como tantos outros pacientes que chegam à minha frente, que senti nas suas dores e exemplo de vida uma forma simples de retratar o Natal e tudo que ele representa. 
    Mesmo que existam dores, mesmo que existam obstáculos, o mais importante sempre será o amor, a paz, a harmonia, os nossos sonhos, o próximo que está ao lado, a ajuda simples e simbólica.
   Que tenhamos sempre paz, harmonia, que todos os nossos sonhos se tornem reais, e que venham muitas histórias por aí em um ano novo repleto de coisas boas!
  

Dos loucos, alcoólatras e algumas bocas

  Dois casos em menos de 48 horas caíram na minha frente através de duas histórias protagonizadas por pessoas incomuns, caracterizadas por angústias, impaciência,loucura e vícios. Tudo isso chega,sim,a um consultório odontológico público... E são minhas escolhas, e são as escolhas deles,pacientes, que nos colocam frente a frente num enredo caracterizado por tortuosos desfechos.
  A irmã de um pequeno paciente chegou ao consultório e insistiu veementemente que a criança precisava de um clareamento. Até aí tudo bem, mas ela conhecia a boca do menor decorada, cada dente, cada pedaço da boca dele era descrito por ela( juro que me assustei), mas o susto mesmo veio quando ela descobriu meu telefone e passou a me ligar,depois descobriu minha casa e foi tocar a campainha. Então me falaram que ela é bipolar,e coitado de mim, a bola da vez, ou dela,quem sabe. Depois de tanto insistir ela sumiu...
  Vinte e quatro horas depois um senhor alcoolizado entrou no consultório e insistiu que eu extraísse um dente hígido dele e sem anestesia (juro que deu vontade). Esse senhor ainda voltou mais duas vezes,e em todas estava caindo,literalmente bêbado. Deve tá numa ressaca daquelas agora ( e que não volte mais).Certo que outro louco já invadiu o consultório que eu trabalho e queria quebrar tudo. Prenderam ele depois de  sair do consultório escoltado pelo segurança, ele foi tentar quebrar a igreja evangélica da rua ao lado. Passou a noite na prisão pra compensar.
  Pra finalizar, despejo toda carga de boas energias pra quem mora por aqui e pra quem tá lendo essas poucas linhas. Que a paz substitua a loucura de corações aflitos e sedentos de educação, amor, cultura, lazer saudável e paz, muita paz.

O caso da dentadura cariada

           Muitos pacientes são tão caricatos quanto excêntricos ,suscitam minham imaginação e às vezes chego a duvidar da lucidez(deles,não minha ).E graças ao tempo de conversa enquanto abrem-se bocas,acionam-se motores,e mais conversa,e mais... E surgem histórias como esta,que só poderiam ser protagonizadas por eles mesmos,os próprios pacientes,e suas dúvidas,crenças,e medos.Dessa forma, mais um caso meio louco chegou até o consultório odontológico, e eis o fato:
        Um senhor de 68 anos durante exame de prevenção ao câncer de boca foi orientado a usar prótese total superior e inferior.Logo após ser mencionado o nome "dentadura", o senhor falou:
        - Não,nunca usei,faz anos que vivo assim,mas porque quero que seja assim...
        -E o senhor não gostaria de que seja feita uma dentadura? Nunca sentiu falta dos seus dentes?
        -Falta,falta doutor,até que sinto,mas já acostumei...
        Ele completou:
         -Gostaria  mesmo de uma dentadura com obturação,com aquelas coisinhas pretas...
        -Coisinhas pretas? O senhor quer uma dentadura cariada? Obturada?
        -Isso doutor! Acho lindo!!Desse jeito eu até usaria uma,duas até...
        Achei que ele estivesse brincando,ou que num estado de loucura passasse a desejar uma dentadura cariada,obturada com amálgama.Mas era isso mesmo: o sonho daquele senhor era usar uma dentadura com restaurações de amálgama,simplesmente porque para ele é lindo! Lembrei de uma paciente de um colega dentista que insistia que fosse confeccionada um dentadura com aparelho ortodôntico porque ela achava lindo e tinha esse sonho: usar aparelho ortodôntico.
        Depois de muita conversa foi impossível convencer o senhor de 68 anos de que não daria (pelo menos eu não faria isso) de confeccionar uma dentadura com restaurações de amálgama,e cariada também(o que é mais doido ainda).
        Ele saiu sorrindo sem dentes na boca e sonhando com a possível dentadura cariada, e eu fiquei pensando o que mais ainda poderá aparecer na minha frente...


P.S.: O site animafest vende dentaduras cariadas (caso alguém tenha ficado interessado em usar uma) a R$ 2,50 a unidade. Pena que nunca mais vi essse senhor,ele sumiu mesmo.