Férias!!!


Desculpa a todos os meus amigos que sempre visitam este espaço, por algum tempo não publicarei novas crônicas, não que faltem histórias,pelo contrário, muitas ainda virão e continuam acontecendo... Precisei recarregar minhas energias, e férias são sempre bem vindas, longe do consultório, sem precisar acordar cedo, sem roteiros, somente praia e água fresca... e muitas baladas!!! Por isso novas crônicas somente em outubro!!!! abraço a todos

Especial


Entende-se saúde como um bem estar físico, social, mental, cultural, e não simplesmente o fator doença entendido como o simples fato de o corpo não funcionar perfeitamente. Se não tivermos educação, moradia, saneamento básico, lazer,e se não estivermos socialmente incluídos dentro de um contexto favorável,com certeza, não estaremos no caminho certo...
Muitos pacientes que chegam até o consultório público não entendem o real valor desses fatores no desenvolver de sua saúde corporal, mental, física. Acreditam que, por ser público, deve ser e continuar com falhas, com brechas que não permitam mudanças significativas. Para muitos, o público significa de graça, imperfeito,e assim deve continuar porque não temos nada a ver com isso,e bom mesmo vai ser o plano de saúde que pago, a escola que pago,e por aí vai. Quando, na verdade, o público não é tão de graça assim,e somos nós que pagamos, que promovemos sua funcionalidade através de impostos que depositamos nas contas do governo, seja ele federal,estadual ou municipal.
Existem grandes exemplos de instituições públicas sérias e comprometidas,e que nem sempre o que é privado irá significar retorno de bons resultados. Assim como o oposto também existe. E inúmeros casos poderiam ser citados...
Pela segunda vez atendo, no consultório público, uma paciente de 15 anos, vou cháma-la de paciente S. A jovem S sofre de paralisia cerebral, ela é extremamente educada, simpática, alegre, e sinto toda vez que ela chega ao consultório uma paz muito grande. Ao conversar com a responsável de S, ela relatou que já havia tentado colocá-la numa escola particular, mas todas as escolas da cidade haviam rejeitado S,e sempre alegaram que não tinham condições de educá-la,e afirmou que depois de muito tentar, não porque S se recusasse a frequentar a escola, pelo contrário, S adoraria ir diariamente à escola. Achei tudo um absurdo, primeiro porque é crime, está previsto na lei, tanto devido o preconceito quanto a recusa de receber S por se tratar de um paciente especial.
S nunca frequentou uma escola, tem 15 anos e nunca esteve ao lado de outras crianças numa sala de aula. A família dela resolveu que seria melhor não insistir, pois teme que ela possa sofrer preconceitos numa escola que não tem professores capacitados para recbê-la,e também porque já se recusaram mesmo antes de S pôr os pés na escola.
Lembrei de uma escola pública, nessa mesma cidade que trabalho. Uma escola simples,mas com professores e direção engajados socialmente com a comunidade. Lá não existem núcleos especiais,salas separadas para deficientes, pelo contrário, eles estudam juntos com os outros alunos, e nesta escola há varios alunos com Síndrome de Down, deficientes físicos,e com paralisia cerebral, como no caso da jovem S. Foi a primeira escola publica da cidade que trabalho na qual vi a presença de rampas para deficientes terem acesso à escola.
São exemplos como esse que ainda fazem eu acreditar que tudo pode dar certo, que ainda temos chances de mudar muitas coisas mesmo com poucos recursos,e que só teremos realmente saúde quando tivermos cidadãos mais educados, trabalhando, produzindo, moral e culturalmente. E que,.no futuro, casos como o da jovem S sejam apenas exceções.
Abraço a todos

Preconceitos


Nunca se falou tanto em atendimento humanizado como nos últimos anos. Acho isso extremamente importante, pois tratar o paciente pelo nome, vê-lo como um ser humano que tem sentimentos, anseios e dúvidas torna-se bem mais viável que tratá-lo por números, ou simplesmente pela doença que o acomete.

Mas na realidade não é o que vivenciamos, e alguns justificam a falta de atenção e respeito relacionando-a com as condições precárias de atendimento, ou a péssima remuneração que o sistema se propõe. Definitivamente, não concordo com esses caminhos...

É certo que temos péssimas condições de trabalho, somos muito mal remunerados, mas não justifica ter atitudes que levam ao preconceito e à falta de educação. Os usuários do sistema público não têm culpa, eles são vítimas do sistema...

A alguns meses atrás, durante uma confraternização com vários colegas médicos, enfermeiros e dentistas pude ouvir muitos relatos, e gosto desses momentos, são oportunidades de trocar idéias. Uma história que pretendia ser cômica,pelo menos na visão do colega que estava relatando, tornou-se motivo de discussões por parte de todos . Durante uma noite de plantão no hospital que trabalha, relatou um colega, surgiu um rapaz,na verdade não dava pra saber se era homem ou mulher, mas depois de conversar com ele percebeu-se que era um homem travestido de mulher,ou seja,um travesti que buscava atendimento no único hospital público da cidade. Meu colega continuou relatando,e pasmem, afirmou que pediu ao rapaz que se retirasse do hospital, fosse em casa e vestisse uma roupa de homem, só assim seria atendido. Meu colega esperava que todos rissem da história dele, pelo contrário, entramos numa discussão que durou vários minutos, e todos concordavam que ele estava errado. Ele não tinha que ter expulsado o paciente do hospital simplesmente por ele vestir-se fora do usual, ou talvez por ser homossexual. Não importa a roupa que o paciente vista, a cor de sua pele, a sua orientação sexual,se ele é rico ou pobre,se ele chegou até o hospital a pé ou dirigindo um astra último modelo. Não tem que existir preconceito de forma alguma! Absurdos como esse só servem para macular mais ainda o sistema de saúide já tão falho e cheio de imperfeições que possuímos.

No final da discussão, todos concordaram que o colega agiu de forma preconceituosa, e colocou em risco a vida de um ser humano.Ele foi o único a continuar achando que estava certo,e deve pensar dessa forma ainda hoje, uma grande pena! E se o paciente fosse esclarecido, soubesse de seus direitos ,poderia ter processado o caro colega.

"Vamos celebrar os preconceitos, o voto dos analfabetos, comemorar a água podre e todos os impostos,queimadas,mentiras e sequestros. Nosso castelo de cartas marcadas... toda hipocrisia e toda afetação,todo roubo e toda indiferença..." ( Perfeição, Renato Russo)

Abraço a todos

Alfadentizar


Educação e saúde são dois pilares fundamentais do desenvolvimento humano,sem o primeiro nos tornamos manipuláveis e sem o segundo nossos dias se tornam cada vez menores,e nossa existência passa a ser mais sofrível. Podemos viver em perfeita harmonia com os dois,mas na maioria das vezes não depende somente de nós, geralmente recebemos educação e geramos saúde a partir dessa situação. E quando nos é negada essa educação? E quando ela é falha?

Dentro do consultório odontológico uma situação me colocou diante de uma realidade que eu já reconhecia,apenas não aceitava ainda. Pois é, às vezes também nos deixamos levar pelas máscaras que o sistema nos impõe,e acabamos aceitando que está tudo muito lindo,tudo muito organizado. Ao atender um adolescente de 13 anos,cursando a terceira série primária,acabei descobrindo que ele não sabe assinar o próprio nome,e muito menos ler. Ao pedir que assinasse seu nome na ficha de produção diária de procedimentos,ele me disse que não sabia,e que nunca tinha assinado. Perguntei como ele tinha passado de ano,como conseguiu aprovação,e ele me respondeu que as professoras sempre o passavam,mas que nunca tinha se preocupado em mostrar a ele como assinar o nome nem muito menos ler um texto.

Conversei muito tempo com ele,vi sua capacidade de raciocinar,de formar frases e que sua timidez ia sendo perdida,e que cada vez mais me conscientizava que aquilo tudo era um tremendo absurdo.

Sempre visito as escolas do local aonde trabalho,pois coordeno um programa de saúde bucal,e justamente tive a oportunidade de ir até a escola na qual o paciente estuda. Se não fosse por necessidade teria ido mesmo pela minha consciência ,pois os questionamentos não paravam em minha cabeça.

Chegando à escola,procuro a direção,e ao conversar com os responsáveis busco respotas para toda a situação. E pasmem,a diretora me relatou,na minha cara,"não doutor,nem ligue pra ele não,ele não é normal não!!! já tentamos muito fazer ele escrever,mas ele não aprende nunca!!!". Falei pra ela que ao conversar com ele não vi nenhum traço de loucura,e perguntei como elas passavam ele de ano sem ao menos saber assinar o nome. E outra resposta absurda: "doutor,temos o projeto acelerar,então ninguém pode ficar reprovado,pois a escola perde pontos e o governo não quer ninguém reprovado". Pois é amigos,o nosso governo quer números,nosso presidente quer números,quer estatísticas que mostrem o fim do analfabetismo,e dessa forma "aceleram" o aprendizado. E "aceleram" também o desemprego,a pobreza, a fome, o crime organizado, as injustiças socias....

Saí da escola triste,e vi que não tinha mais jeito,a não ser que o pequeno adolescente mudasse de escola, e isso não dependeria de mim,infelizmente...

Ele vai continuar voltando ao consultório,e vou continuar estimulando seu aprendizado,mostrar que é uma obrigação da escola ensiná-lo a ler e escrever. Para não criar maiores transtornos resolvi ficar por aqui com essa história,pois poderia muito bem buscar alternativas na secretaria de educação,mas talvez só piorasse a situação e me revoltasse mais ainda,pois acabaria descobrindo que como esse devem existir mais e mais casos...

Abraço a todos