O Elefante no Dente
A visão de doença que cada um tem,muitas vezes, é pessoal e exacerbada por experiências culturais das mais diversas. Chama-me muito atenção o significado que a doença cárie apresenta nas mais distintas populações, nas mais díspares culturas. E muitos pacientes chegam ao consultório odontológico carregando uma visão única e ontológica da doença cárie, muitas vezes transformando-a num mal que deve ser combatido, algo que tem vida própria.
Cecília tem 26 anos, e sua experiência com a doença cárie retrata muito do que se imagina de uma visão alopática da doença, ou seja, da doença como um mal que deve ser combatido. Quando ela entrou no consultório e falou que tinha um elefante no dente dela, pensei: "Ela tá louca!!". Mas não, Cecília é normal, pelo menos dentro dos padrões que enxergamos. O elefante invadiu o dente dela, a dor transformou-se em algo tão grande quanto o elefante que devia ser combatido,retirado,exterminado ( tadinho do elefante, sou contra maltratar animais).
Por outro lado, dona Marta transformou a doença cárie numa lagarta que tem vida própria e invadiu o dente de Rosana,sua filha de oito anos.Quando a pequena chegou ao consultório sua mãe já exagerava nas armas que seriam usadas para matar a lagarta que se apossou do dente da filha. A menina com cara de assustada olhava para mim como que pensando: "Esse é o assassino da lagarta?". E eu lá, passível de me transformar no exterminador de lagartas.
Não destruí os sonhos ontológicos de Cecília muito menos de dona Marta, e nem de tantos outros que já cruzaram meu caminho transformando a doença cárie, ou a gengivite, ou a periodontite num ser malevólo, num monstro que deve ser combatido...




Verdade "zoológicos" bucais, rsrsr.