O dente imaginário

   De todos os usuários que visitam frequentemente a unidade básica de saúde à qual trabalho,e dos mais caricatos de todos, podemos encontrar dona Fátima. Hipocondríaca, alcólatra, e dona de uma simplicidade e simpatia que nos faz esquecer todas as possíveis loucuras que ela protagoniza.
   Desde a primeira vez que nos vimos, a situação ressaltada por ela situava-se na incômoda reação a um dente que necessitava ser extraído. As reclamações começaram, logo, antes mesmo de qualquer exame inicial. Mas depois, após exames,conversas e histórias,descobri que não havia dente algum, que dona Fátima é edêntula total a anos. Mas ela ainda insisti( dia após dia) em extrair o dente...Nos momentos de embriaguez e visitas à unidade de saúde, ela torna-se o centro das atenções,e sempre o suposto dente volta como motivo de visita dela ao consultório. A própria, ao referir-se ao mesmo já o faz entre risos. Ela ,no fundo, sabe que o dente realmente não existe ,concretamente não. Tanto que certo dia ela disse que,então,eu “arrancasse”algum dente da dentadura dela,pois se não tinha dente na boca,pelo menos eu tirasse um dente da dentadura dela. Não foi possível fazer isso...
   E ela continua as suas visitas freqüentes à unidade marcadas por momentos de embriaguez, noutras lucidez fortemente acentuada por uma hipocondria característica.Ao investigar, descobri que a anos,muitos anos que o álcool faz parte da história de dona Fátima. Seu esposo e filhos não bebem,e precisam estruturar a família no que podem.
   Dona Fátima tem hoje por volta de 60 anos, não trabalha, pouco fica em casa, e suas visitas à unidade de saúde da família precisam ser usadas para tentar ajudá-la,pelo menos em parte, porque o problema é bem mais complexo e requer, certamente, uma atenção multidisciplinar que foge ao composto atualmente pela equipe que trabalho,e que como tantas outras espalhadas pelo resto do Brasil ainda não são capazes de,ainda, pelo menos na prática atuarem sobre esses determinantes sociais. Mas precisamos, enquanto uma estratégia focada na família tentar colocar dentro de nossa rotina diária de trabalho a infinidade de possibilidades que estão escancaradas fora dos consultórios,e que clamam por mudanças.
5 Responses
  1. Marcio Shelley Says:

    Muito bom... Casos assim nos mostram a importância de uma equipe multiprofissional, pois além do dentista (para o dente imaginário) ainda seria campo para Psicologia e até Educação Física, que vem ganhando espaço no campo da saúde mental. Como sempre, muito interessante. Está de parabéns!!


  2. Leo Augusto Says:

    O dente pode ser imaginário. Mas, dona Fátima não é um Doente imaginário...
    Recursos que 'sobram' em outros lugares; faltam, escadalosamente na área da saúde!


  3. Kellen Says:

    Que triste! O alcoolismo é um poblema sério.
    Sorte dela que há profissionais como vc que não enxergam apenas um dente a ser tratado,por trás daquele pacinte há uma pessoa que precisa de ajuda.
    Parabéns pelo post!
    bj


  4. Muito bom! Amilton, acho que as datas nas laterais das postagens não estão corretas.


  5. Amilton Says:

    Verdade Ricardo, as datas estão realmente erradas,já tentei mudar e não deu certo,isso acontece desde a mudança de template que realizei... abs